27 abril, 2012

A desvalorização interna


No Público de hoje, Domingos Ferreira faz perguntas pertinentes.
Aqui fica a totalidade do artigo.


O FMI, o Banco Mundial, bem como o Brookings Institution-Financial Times Index, que mede o índice de recuperação da economia mundial, mostraram na última reunião profunda ansiedade com a grave deterioração da crise económica europeia em resultado das insistentes e letais medidas de austeridade. Porém, quem não parece estar preocupado é o primeiro-ministro português, que acredita que a sua inquestionável cartilha ideológica lhe fornece todas as soluções e, por isso, ele é o homem de Estado providencial, com a evangélica missão de salvar Portugal.

Após um ano em funções, observa-se que, em resultado da sua inexperiência e teimosia, bem como do seu inepto executivo, os grandes problemas nacionais continuam por resolver. Para além disso, as medidas até agora implementadas agravaram dramaticamente o estado da economia. No entanto, o primeiro-ministro defende que "A desvalorização interna é a única solução possível no equilíbrio das contas públicas, dada a impossibilidade de desvalorização da moeda". Contudo, aqueles que sabem matemática conheciam a verdade cruel da desvalorização interna e das medidas de austeridade: o desemprego está agora nos inimagináveis 15% e chegará aos 20% no próximo ano. O "buraco" nas contas públicas continua a alargar-se quer pela queda na receita fiscal, de cerca de 5%, quer pelo aumento da despesa em cerca de 3,5%. Por conseguinte, o Governo será forçado a lançar novos impostos (agora sobre a propriedade), agravando a recessão, numa espiral sem fim, como se observa pela dívida pública que cresceu de 100%, em 2011, para 112%, em 2012, e crescerá para históricos 118% no próximo ano. A economia encolherá 4% até ao fim deste ano. Todos os dias cerca de 30 empresas são tornadas insolventes.

A derrapagem obrigou já o primeiro-ministro a admitir que Portugal só voltará aos mercados lá para 2015 e as negociações para novo resgate estão cada vez mais em cima da mesa. Porém, numa manobra de inaceitável e enganadora propaganda política não só anunciou que a economia cresceria a partir de 2013, como também irá repor parte dos subsídios perdidos (talvez uns ridículos 10%) no conveniente ano de eleições de 2015. Todavia, a economia só poderá crescer por três razões: aumento do consumo nacional, aumento das exportações ou aumento do investimento. Lamentavelmente, o consumo deverá encolher por motivo da desvalorização dos salários. Por conseguinte, os portugueses perderão cerca de 14% do poder de compra só neste ano. Assim, não haverá crescimento por esta via. Embora se tenha verificado um aumento de 13% nas exportações, em termos absolutos estas continuam a não ter expressão. E o facto de as indústrias responsáveis por este aumento não serem nacionais (Autoeuropa e outras), a incorporação de matéria-prima no produto final maioritariamente importada neutraliza este crescimento. Acresce ainda que, para além de o euro ser fortemente lesivo às exportações nacionais, o inoportuno aumento dos combustíveis faz adivinhar uma desaceleração da economia mundial. E, por último, em períodos fortemente recessivos, as empresas não investem (os custos de produção e a asfixiante carga fiscal torna o país não competitivo), e o Estado não investe, dada a aflitiva escassez de recursos. Por conseguinte, torna-se totalmente improvável a retoma, como se torna cada vez claro que a desvalorização interna não é a solução para a crise nacional.

Outro erro histórico será o de privatizar a Segurança Social e o Sistema Nacional de Saúde. Estes senhores não sabem que nos EUA milhões de americanos perderam as suas poupanças e foram lançadas na pobreza em resultado da falência de algumas companhias de seguros e de bancos? Será que não sabem que uma em cada três famílias fica insolvente em resultado das elevadíssimas despesas do sistema de saúde privado americano? Então não sabem que as despesas de saúde do tão "eficiente" sistema privado americano é duas vezes superior ao sistema de saúde público alemão ou sueco e três vezes superior ao Sistema Nacional de Saúde? Porque insistem no erro? Porque não reformam o cancro nacional que são as PPP? Onde estão as reformas fundamentais para a modernização e revitalização da economia nacional? Porque não abrem a economia fortemente oligopolizada e cartelizada à concorrência? Porque não baixam os impostos às depauperadas pequenas e médias empresas? Porque não introduzem moralidade no sistema e põem fim aos indevidos privilégios de alguns influentes? Porque são sempre os mais vulneráveis a pagar? Pois, disto nem se ouve falar.