15 janeiro, 2012

A bofetada não se desculpa!

 No jornal Público de hoje, uma reportagem que não deve deixar de ser lida e partilhada por todos, principalmente por quem tem contactos privilegiados com crianças, adolescentes e jovens adultos.

"Coscuvilhar os sms até é bom: é sinal de que gosta de nós"

Por Natália Faria A bofetada não se desculpa. Mas proibir a maquilhagem ou o uso de minissaia até pode ser amor. Na escola ou fora dela, a violência contada pelos jovens. A APAV lança campanha. Quanto à proposta de criminalização do bullying, caducou 

Espreitar as mensagens no telemóvel não é violência. É demonstração de afecto. "Até dá alguma segurança. Se ela não ligasse nada, é que ia ficar desconfiado. Era sinal de que não gostava muito de mim", atira João Baía, estudante, 18 anos. E se um rapaz proibir a namorada de usar minissaia? "Se ele gosta tanto de nós, até pode ser de ficar contente", admite Joana Queirós, 17. Violência física admite-se? "Isso não. Mas tenho uma amiga que andou vários meses assim, com o namorado a bater-lhe", revela Mariana Guimarães, 22 anos.

A violência vive entre os jovens. Entre os casais de namorados e entre os colegas na escola. Sob a forma de agressões físicas, mas sobretudo de insultos, humilhações, inibição de sair, de usar um decote, ou de falar com outras pessoas. E o que mais preocupa os especialistas é que a violência nem sempre é percepcionada como tal. Para começar a mudar mentalidades, a Associação de Apoio à Vítima (APAV) lançou esta semana uma campanha de prevenção da violência entre os jovens. Do bullying na escola à violência no namoro", o mote é Corta com a violência - Quem não te respeita não te merece. "É uma mensagem emocional, assertiva. Um lema para levar para a vida", sintetiza Rosa Saavedra, da APAV, cujo objectivo é "dar visibilidade a formas de violência menos valorizadas pela comunidade em geral, como a intimidação, o gozo, atitudes controladoras nos relacionamentos de namoro". É que, "apesar de terem um impacto físico menos óbvio, tendem para formas de violência mais grave".

No caso de Joana Santos, 21 anos, nem foi preciso esperar muito. O ex-namorado começou com pequenas cenas de ciúmes. "Andava tapadinha de cima a baixo. Saias ou calções nem pensar." No início tolerava. "Era aquela coisa de ter medo de o perder e ficar sozinha outra vez." Não passaram muitos meses até que a violência assumiu contornos mais agudos. "Ele até da minha mãe tinha ciúmes. Se saíssemos as duas, punha-se a dizer que íamos fazer olhinhos aos gajos." Depois veio a primeira bofetada. E outra e mais outra. "Uma vez tive de saltar de um carro em andamento para não levar mais." Joana tinha 19 anos, o namorado 26. A gota de água ocorreu num centro comercial. "Estávamos na zona de refeições e uns rapazes na mesa ao lado começaram: "Ui, gaja boa." Ele escarrou-me logo na cara. Acusou-me de os ter provocado. Deu-me dois estalos." Nesse dia, Joana acabou com a cara coberta de sangue. Mas, durante os dois anos que durou o namoro, fechou-se em copas. "Ele ameaçava-me, se falasse."

Para a psicóloga Marlene Matos nada disto surpreende. "Os jovens raramente recorrem às instituições formais, como polícia ou associações de apoio à vítima. Quando procuram alguém, costuma ser os professores ou os pares. Por isso é que é importante que nas comunidades exista uma mensagem de tolerância zero em relação à violência. E isso nem sempre acontece", alerta a investigadora da Universidade do Minho, co-autora do estudo Violência Física e Psicológica em Namoro Heterossexual, publicado em 2008 e segundo o qual a violência nas relações amorosas nos jovens entre os 15 e os 25 anos atinge níveis idênticos aos verificados entre os adultos. Dos 4730 jovens inquiridos, 25% tinham sido vítimas de violência por parte do parceiro, desde insultos, ameaças e coacção (20%) à agressão física (14%). Por outro lado, 30% declararam já ter agredido o parceiro. "Estava muito presente o discurso que tende a encarar a agressão como um acto de amor. Uma das diferenças em relação à violência entre adultos é que entre os jovens é mais comum a chamada "pequena violência" - a bofetada, o difamar, injuriar e humilhar. A outra é que entre os mais novos a violência é usada tanto por rapazes como por raparigas. Não se nota aquele padrão tipificado de agressor masculino como nas relações entre adultos."

Que o diga o estudante João Fernandes, 22 anos. "A minha ex-namorada tinha muitos ciúmes. Por qualquer coisa atrofiava. Bastava ver-me a falar com uma rapariga num bar. Chorava, mandava-me mensagens a chamar-me porco e a dizer que eu não valia nada", recorda, à mesa de um café com a actual namorada. Flávia Ferreira, 17 anos, foi também ela vítima dos ciúmes da ex-namorada de João. "Puxou-lhe os cabelos, ofereceu-lhe porrada, fez-lhe trinta por uma linha", recorda João. A relação durou seis meses. "Ela gostava mesmo de mim e por isso fazia o que devia e o que não devia. No início, ela atrofiava e eu desculpava-lhe as asneiras, porque era bom saber que ela gostava assim tanto. Mas um dia, estive quase a passar-me e a cair-lhe em cima. Foi um acumular de situações...", expõe.

A psicóloga Carla Viana, a trabalhar num agrupamento de escolas de Alfena, explica. "Entre os jovens, a violência física não é tão bem aceite. Mas o gozar, o humilhar, a pressão, o controlo, a inibição de contactos e a exigência de uma vida dedicada ao outro já são muito mais aceites e desculpados. Ouve-se coisas do género: "Se ele faz isso, é porque gosta mesmo de mim." Para nós o desafio é obrigar estes miúdos a olhar para estes comportamentos e a repensarem-nos."

Observatório parado
No ano lectivo 2009/2010, registaram-se 4713 ocorrências nas escolas. Destas, 33% consistiram em ofensas à integridade física, 27% em furtos, 11% em injúrias e ameaças. Só na Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa, em 2010, foram abertos 166 inquéritos por violência escolar (145 no ano anterior). Até ao terceiro trimestre de 2011, contavam-se 107, segundo a assessoria de imprensa de Pinto Monteiro.

Mas serão os casos mais graves. "Mesmo nas escolas, a maioria das agressões resulta de desentendimentos relacionais. Alunos que se desentendem num jogo de futebol ou numa situação de namoro, em que alguém arranjou uma nova namorada, mas esqueceu-se de avisar a anterior... São quase sempre formas de agressividade relativamente mínimas. O que revelam é uma imaturidade emocional que, numa idade em que a mobilidade afectiva é muito grande, os leva a reagir mal", relativiza João Sebastião, coordenador do Observatório da Segurança em Meio Escolar. Criado em 2005, o observatório é a unidade responsável por fazer a recolha e o tratamento dos dados sobre a violência nas escolas. Mas o contrato com o Ministério da Educação caducou em Dezembro. "Neste momento não estamos a fazer o tratamento dos dados, porque o ministério não nos disse se é para continuar." Ao PÚBLICO também não. O gabinete de Nuno Crato não respondeu às questões colocadas a meio desta semana.

Não bastava a incógnita quanto à monitorização dos dados sobre violência escolar, João Sebastião acha que o desaparecimento do módulo de Cidadania e Segurança no 5.º ano pode traduzir um retrocesso em termos de prevenção da violência. "Era um tempo em que os alunos eram chamados a compreender a violência e informados dos recursos que tinham para se defender, e que até se previa que fosse alargado ao 9.º ano. Desse ponto de vista, haverá uma regressão", antecipa o sociólogo.

João Baía, 18 anos, seria bom candidato à sensibilização para a violência.

- Havia um rapaz na minha turma que era muito calado. Ficou o Cristo de toda a gente. Qualquer coisa, caíam-lhe em cima. Davam-lhe cachaços, punham-lhe alcunhas, nunca o chamavam para os jogos de futebol.

- E tu?

- Eu também não! Ele ficou excluído pela personalidade dele. Aquilo foi assim o ano todo, até que ele acabou por mudar de escola.

É um caso que podia ter motivado processo-crime. Mas para isso era preciso que Isabel Alçada, a anterior ministra da Educação, tivesse avançado com a criminalização do bullying. É agressão como as outras, mas continuada. Pode ser só ostracismo, desdém, troça, uma risada, uma careta. A devastação que provoca resulta da sua durabilidade no tempo. A palavra bullying surgiu, por exemplo, associada ao suicídio de Rafael Pereira. Tinha 10 anos. Em Outubro, foi encontrado enforcado, no quarto da sua casa, em Lisboa. Em Março, Leandro, 12 anos e aluno do 6.º numa escola em Mirandela, atirou-se ao rio Tua. Costumava ser humilhado e agredido pelos colegas. Em Maio, Filipa, 13 anos, aluna do 8.º, numa escola em Queluz, foi agredida por duas colegas na via pública. Alguém filmou com o telemóvel. O vídeo circulou no Facebook e no Youtube. O caso chegou à justiça e esta segunda-feira vai ser feita a leitura do acórdão. Mas são muitos os que defendem que a intervenção seria mais célere, se o crime de bullying estivesse autonomizado no Código Penal. A proposta chegou ao Parlamento em Dezembro de 2010 e previa penas de prisão de um a cinco anos. Foi aprovada em Janeiro de 2011, com os votos contra do BE, do PCP e do PEV e as abstenções do PSD e CDS/PP.

O problema é que depois disso caducou. É assim mesmo que se lê no site do Parlamento. Frederico Marques, assessor técnico da direcção da APAV, lamenta a oportunidade perdida. "Não era uma solução milagrosa, mas, à semelhança do que se passou com a violência doméstica, ajudaria a sedimentar este tipo de crime, até porque muitas das condutas que lhe estão associadas têm penas relativamente baixas quando encaradas individualmente." João Sebastião discorda. "Atribuir o estatuto de criminosos a crianças e jovens parece-me uma reacção desajustada do sistema político à agitação mediática." O deputado comunista Miguel Tiago concorda. "Onde é que estão os funcionários a vigiar os miúdos nas escolas? Largamo-los às centenas nos recreios, não há colocação de funcionários, os psicólogos foram reduzidos, ou seja, falha-se na prevenção e depois se um jovem agride alguém agrava-se a pena?"

O PÚBLICO perguntou ao gabinete de Nuno Crato se a intenção do ministro é recuperar a criminalização do bullying, mas não obteve qualquer resposta. O que se sabe é que, no âmbito das alterações ao estatuto do aluno, os pais irão ser responsabilizados pela indisciplina e falta de assiduidade dos seus filhos. Como? O secretário de Estado João Casanova de Almeida, responsável por este processo, ainda não revelou. O sociólogo João Sebastião teme pelo que virá. "Vamos penalizar os pais dos miúdos a quem, até pelas jornadas de trabalho e pelo tempo que perdem em deslocações, foi retirado o tempo para serem pais?" Frederico Marques, da APAV, lembra que o importante seria investir na educação parental. "Responsabilizar os pais só faz sentido, se for numa perspectiva pedagógica. Agora sancionar..."

Psicoterapeuta na Unidade de Consulta em Psicologia da Justiça da Universidade do Minho, Marlene Matos salienta que o fundamental era "não deitar a perder a motivação que as escolas têm para combater o problema". "Sem isso persistirão os estereótipos que levam os rapazes a sentir que têm a última palavra naquilo que a mulher pode fazer e as raparigas a achar que o namorado proibi-las de usar maquilhagem ou determinada roupa é amor, interesse e preocupação."

"E não pode ser?", contrapõe Joana Queirós, 17 anos, quando lhe perguntam se admitiria um namorado que a proibisse de usar minissaia. "Por um lado não, mas por outro... Se ele gosta tanto de nós, até pode ser de ficar contente."

"É grave", analisa Sónia Caridade, autora dos primeiros estudos feitos em Portugal sobre violência entre jovens, "porque é uma legitimação da violência menor". Se é assim no discurso, sê-lo-á ainda mais na prática. "Mesmo quando dizem que não aprovam tais comportamentos, numa análise mais micro percebem-se as incongruências entre o discurso e a prática." Traduzido por Filipa Guedes, uma estudante de 20 anos: "Os jovens têm cada vez mais noção, mas não é por isso que deixam de tolerar. Eu já tive um namorado que me agarrou no braço e nunca mais lhe falei. Mas tenho uma amiga a quem o namorado já bateu e que continua o namoro." "O pior", remata Marlene Matos, "é que estes comportamentos podem constituir-se como precursores, ou seja, é um factor de risco para a violência na idade adulta o ter-se experimentado violência na fase do namoro". Mesmo que disfarçada de afecto. A violência vive entre os jovens. Entre os casais de namorados e entre os colegas na escola

01 janeiro, 2012

Está Tudo Ligado - para reflectir!

"O poder da música assenta na sua capacidade de falar a todos os aspectos do ser humano - o animal, o emocional, o intelectual e o espiritual. Muitas vezes pensamos que as questões pessoais, sociais  e políticas são independentes, não se influenciando umas às outras. Com a música aprendemos que isso é uma impossibilidade objectiva; não existem, pura e simplesmente, elementos independentes. O pensamento lógico e as emoções intuitivas devem estar permanentemente unidos. Em suma, a música ensina-nos que está tudo ligado."
in "EStá Tudo Ligado O poder da Música ", de Daniel Barenboim, edição portuguesa, Bizâncio, 2009, página 130

Quem me conhece e acompanha um pouco este blogue sabe o quanto admiro este homem.
Vale a pena ler o livro e prestar atenção a tudo o que ele diz. Pode-se não concordar inteiramente com ele, como acontece comigo com alguns dos seus pressupostos, essencialmente os relacionados com a ideia de deus, mas do ponto de vista humano e filosófico, principalmente quem somos e para onde vamos, é muito pertinente a sua opinião. 
Podemos todos beneficiar da sua sabedoria e do seu ponto de vista.

19 dezembro, 2011

Boas Festas

 Um amigo enviou-me este postal de Boas Festas, quando eu já tinha decidido não pôr nada e deixar o blogue em banho-maria, talvez até para o fechar.


 

 

 

Happy Christmas from Guardian Business

 

01 dezembro, 2011

Sobre os tecnocratas sem rosto

“Agora que estamos perante a primeira grande ruptura do século XXI, quando a rapidez das decisões esmaga o tempo humano da compreensão, quando a nossa consciência da realidade parece sempre tardia, e a destempo, como se nada pudéssemos fazer, e tudo estivesse decidido por um alguém que é ninguém, agora, precisamos, mais do que nunca, de reforçar a democracia”, afirmou o reitor da Clássica, salientando que “não basta insistir no triângulo virtuoso da educação, da ciência e da inovação”.

António Nóvoa, em Lisboa, há uns dias atrás. Daqui.

TCHAIKOVSKY Magnifique [Ballet] (Malandain Ballet, 2010)

Eu sei que é apenas um vídeo promocional da Naxos, mas vale a pena ver. Além dos bocadinhos de música de Tchaikovsky a coreografia é fantástica.

21 novembro, 2011

TIC - a propósito do programa curricular.

“Há que mudar um programa completamente desajustado da realidade” - no Educare.pt


António Ramos, presidente da ANPRI, refere que a matéria das TIC deve assentar em programas flexíveis e ser lecionada por professores com formação adequada. "E não servir para completar horários de forma indiscriminada".
As mudanças que a Associação Nacional de Professores de Informática (ANPRI) defende são conhecidas. A disciplina de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) deve sair do 9.º ano e constar nos currículos do 5.º e 7.º anos, ou seja, no início do 2.º e 3.º ciclos. António Ramos, presidente da ANPRI, refere que a matéria das TIC deve assentar em programas flexíveis e ser lecionada por professores com formação adequada. "E não servir para completar horários de forma indiscriminada", sublinha.
Mudar a disciplina para o 6.º ano, como o ministro da Educação já aflorou, é um erro para a ANPRI, que colocou as suas reservas aquando da elaboração do atual programa. "Defendemos uma visão de processo e/ou de projeto em detrimento de uma visão tecnicista e totalmente virada para as aplicações" - sustenta o responsável, professor na Secundária de D. Dinis, em Marvila, Lisboa, e doutorando em Educação no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.

António Ramos, sócio-fundador da ANPRI, chama a atenção para algumas situações. "São agora visíveis as consequências do desaparecimento das TIC no 10.º ano dos cursos científico-humanísticos, com os alunos a chegarem ao 12.º ano sem conseguirem fazer um gráfico numa folha de cálculo ou sem saberem integrar informação de uma aplicação num documento estruturado". E, na sua opinião, desinvestir na educação é "hipotecar o futuro da nação".  


EDUCARE.PT: O ministro da Educação admite a possibilidade de retirar a disciplina TIC do 9.º ano. A medida parece gerar consenso, mas a ANPRI não gostou da afirmação de que os alunos do 9.º ano já sabem mexer num computador. O que se passa?
António Ramos:
Em primeiro lugar, quero dizer que a ANPRI defende, desde há vários anos, que a disciplina de TIC não deveria estar no 9.º ano de escolaridade. Sempre defendemos que uma disciplina de carácter introdutório às tecnologias da informação e da comunicação deveria ter presença no início dos ciclos e não no seu final. E, nesse sentido, estamos de acordo com uma eventual alteração do posicionamento da disciplina no currículo.

Mas a afirmação proferida pelo senhor ministro da Educação ao jornal Público, afirmando que "a maioria dos jovens já domina os computadores perfeitamente e é questionável que seja necessário ter uma disciplina de TIC", é reveladora que foi, seguramente, mal informado pelos seus assessores. A grande maioria dos alunos neste nível de escolaridade sabe, de facto, trabalhar com um computador. Mas "dominar" significa que o aluno deveria saber trabalhar de um modo eficaz e eficiente, pesquisando e selecionando informação, produzindo documentos estruturados. Uma grande maioria destes alunos sabe utilizar, de facto, um motor de busca, mas as suas pesquisas são muitas vezes mal direcionadas. Depois há problemas na seleção de fontes fidedignas, servindo para a maioria dos estudantes a primeira fonte que obtêm numa pesquisa. De seguida, o tratamento da informação passa muitas vezes por um processo de cópia, pura e simples, sem qualquer trabalho por parte do aluno. E há ainda problemas mais graves, nomeadamente no campo da segurança. A maioria destes alunos tem conta aberta no Facebook, colocando online informação pessoal e fotografias de modo indiscriminado e sem qualquer sentido de responsabilidade. O Facebook tem servido também como elemento de cyberbullying, situação que se tem agravado.

Por isso, dizer-se que "é questionável que seja necessário ter uma disciplina de TIC" é uma afirmação perigosa, suportada por falsas premissas. Há, isso sim, que mudar um programa completamente desajustado da realidade, apoiado por manuais escolares que dão preferência à componente técnica da disciplina. Há, isso sim, que pensar que uma disciplina como esta deve estar no início de cada ciclo, preparando os alunos para a utilização das TIC nesse ciclo.

E: Nuno Crato abriu a porta à possibilidade de as TIC passarem a ser lecionadas no 2.º ciclo, mais concretamente no 6.º ano. É razoável que assim seja, uma vez que a ANPRI defende as TIC no 5.º e no 7.º anos, ou seja, no início do 2.º e 3.º ciclos?
AR:
Colocar a disciplina no 6.º ano é, na nossa opinião, um erro. A ANPRI defende a necessidade de uma disciplina deste tipo no início de cada ciclo. Falamos, concretamente, do 5.º e do 7.º anos. A ideia de uma disciplina deste tipo é dotar o aluno das competências necessárias a cada ciclo. Isso só se consegue com o posicionamento da disciplina no início do ciclo, não no final. E há claramente necessidades diferentes no início do 2.º ou do 3.º ciclos.

Mas falamos também no 10.º ano, onde a retirada desta disciplina dos cursos científico-humanísticos deixou estes alunos com um défice de formação nesta área no que respeita aos seus colegas dos cursos tecnológicos - entretanto praticamente extintos pelo Ministério da Educação - e dos cursos profissionais. As consequências da remoção das TIC do 10.º ano começam agora a sentir-se. E provam que foi um erro.

E: As alterações que a disciplina possa vir a sofrer serão justificáveis? Em que medida?
AR:
A ANPRI tem defendido a desadequação do programa atual de TIC. A existência de uma disciplina deste tipo deve assentar em quatro eixos: informação, produção, comunicação e segurança. Deverá assentar numa filosofia de formação gradual, com os conceitos a serem introduzidos em graus cada vez mais aprofundados conforme a idade do aluno. Deverá privilegiar os processos, assente numa filosofia de projeto, em detrimento da atual filosofia tecnicista. Deverá assentar em programas flexíveis. Deverá estar livre do espartilho de manuais escolares adotados por seis anos. Deverá ser lecionada por professores com formação adequada e não servir para completar horários de forma indiscriminada.

E: Compreende por que razões as TIC estão agora no centro das atenções, a par com EVT? Considera que há aqui uma razão economicista?
AR:
Claro que há razões economicistas. O atual momento económico não nos passa ao lado. Sabemos que tem que haver cortes em todos os setores. Mas a educação tem certamente muito por onde cortar, em vez de se eliminar disciplinas e reduzir a qualidade do ensino. E há, certamente, outras razões. Compreendemos que o senhor ministro considere o programa desajustado. Mas essa tem sido a opinião da ANPRI há muitos anos. Já exprimimos as nossas reservas aquando da elaboração do atual programa de TIC. Defendemos uma visão de processo e/ou de projeto em detrimento de uma visão tecnicista e totalmente virada para as aplicações.


E: O que seria melhor para os alunos?
AR: São agora visíveis as consequências do desaparecimento das TIC no 10.º ano dos cursos científico-humanísticos, com os alunos a chegarem ao 12.º ano sem conseguirem fazer um gráfico numa folha de cálculo ou sem saberem integrar informação de uma aplicação num documento estruturado.

O nosso país tem sido apontado como modelo a seguir no que respeita ao investimento que foi feito nas novas tecnologias. Quando todos olham para nós com admiração, nós enterramos a cabeça no chão e começamos a regredir neste setor.



E: Tem chamado a atenção para a questão da segurança na utilização das novas tecnologias, nomeadamente na Internet. O que deve ser feito para alertar os alunos para esses perigos e em que momentos deve ser feito?
AR:
Deve-se incluir as questões da segurança no próprio currículo da disciplina. Atualmente estas questões são abordadas em ações patrocinadas pelos fundos europeus, cuja importância e qualidade reconhecemos, mas que dependem da vontade de colaboração de alunos e professores. A importância deste problema é demasiado grande para que isso se possa deixar a critérios de disponibilidade e vontade. A sua abordagem deve ser, por isso, obrigatória, a todos os níveis.

E: A introdução do Magalhães no 1.º ciclo foi uma boa medida? Que balanço faz? Os alunos saíram a ganhar?
AR:
A filosofia é muito interessante e há muitos exemplos de boas práticas conseguidas com estes equipamentos. Pensamos que, de um modo geral, o balanço foi positivo e os alunos saíram a ganhar. Mas o programa teve também muitos contratempos.

O maior dos problemas assenta no facto de a introdução do Magalhães no 1.º ciclo ter sido acompanhada por uma intensa falta de formação de qualidade destinada aos docentes deste ciclo, que não são, nem de longe, especialistas no trabalho com sistemas informáticos. Muitas das ações de formação previstas acabaram por ser cortadas por falta de fundos e a pouca formação de qualidade, que ainda se alcançou, deveu-se mais à carolice de muitos dos formadores e centros do que a um plano estruturado de formação que era indispensável.


E: Que preocupações colocará em cima da mesa quando reunir com o ministro da Educação?
AR:
De um modo genérico, as nossas preocupações passam pela qualidade do ensino e pela participação ativa da ANPRI na definição das estratégias para esta área e, principalmente, no desenho curricular do Ensino Básico e Secundário e na elaboração dos conteúdos programáticos da(s) disciplina(s). Defendemos também todas as medidas que permitam o cumprimento das metas definidas em vários documentos elaborados ou assinados pelo governo português, desde as metas de aprendizagem, ao quadro estratégico da União Europeia para 2020 e as metas educativas da Organização dos Estados Ibero-Americanos para 2021.
E preocupa-nos também o futuro do ensino da informática do nosso país. Este ano, temos assistido a violações sucessivas da lei, no que respeita à contratação em oferta de escola de professores de informática, atribuindo-se horários deste grupo a docentes sem a mínima qualificação para o exercício da função e em total atropelo da legislação em vigor.

E: Como olha para o futuro do setor educativo?AR: Com muita preocupação. Com menos professores, com menos investimento e com menos preocupação na melhoria dos currículos e das aprendizagens, a qualidade do ensino só pode decair a níveis de há muitos anos atrás. A educação não é um setor que possa sofrer cortes indiscriminados sem se baixar, inevitavelmente, a sua qualidade. A educação é, porventura, o setor mais importante deste país e desinvestir nele é hipotecar o futuro da nação.

E: Na sua opinião, o que aconteceu ao Plano Tecnológico da Educação?
AR:
Embora a filosofia do plano seja excelente, o que é verdade é que assentou numa visão porventura um pouco megalómana. Investiu-se indiscriminadamente sem se acautelar o futuro. Agora as escolas começam a encontrar os primeiros problemas. A questão do licenciamento dos softwares da Microsoft que acompanhou todos estes computadores é o primeiro sinal de que algo está errado. Outro é a largura de banda disponibilizada às escolas, muito abaixo da largura de banda publicitada. Ao que se diz, resultado de uma má negociação, mas penso que nunca se saberá a verdadeira razão do problema.

O plano falhou no financiamento de uma série de itens fundamentais, dos quais o mais importante será, certamente, a formação e certificação dos professores. Mas não é o único. O programa e-escolas parou, o e-escolinha (Magalhães) também. Muitas das escolas secundárias que não chegaram a ser intervencionadas pela Parque Escolar ficaram sem o equipamento. A videovigilância está por completar. O programa de certificação de competências para os docentes ficou pelo primeiro de três níveis, mas a formação parou.


E: Teme que as restrições impostas no Orçamento do Estado para a Educação mexam com áreas estruturantes do sistema educativo?
AR:
Não temo, tenho a certeza. Elas já aí estão. A suspensão do programa de reestruturação do parque escolar. A suspensão completa do plano tecnológico, aliada à eliminação do crédito horário para as equipas PTE. A criação de um Centro de Apoio TIC às Escolas (CATE) que se suspeita ser um elefante branco que só vem dificultar o funcionamento das escolas, criando um passo intermédio e um atraso na resolução de problemas técnicos nas escolas. O anúncio do desaparecimento de disciplinas ou da fusão de outras. Tudo isso são já certezas de que as restrições impostas no Orçamento do Estado têm repercussões graves em áreas estruturantes do sistema educativo.

20 novembro, 2011

Algumas perguntas sobre bancos

Algumas das minhas perplexidades também! Tenho procurado resposta para muitas destas questões. Neste caso gostava mesmo que alguém comentasse, no sentido construtivo de entender o que se passa. Este artigo foi publicado no sábado 19/11/2011 no Público.  

19 novembro, 2011

Gerald Celente: Acabemos com esta farsa de demoracia

Fui buscar ao Rogério, aqui ao lado.
Parece que já não está actualizado, mas só parece! Há por aí muita gente distraída. É só para chamar um pouco à atenção!



05 novembro, 2011

TRIBUTE TO MILES - JAZZ A VIENNE 2011

Estive a ver este Concerto no Mezzo. Este vídeo não tem a qualidade do que eu vi, mas é uma amostra muito boa. Com grandes músicos, claro!
Herbie Hancock, Wayne Shorter, Marcus Miller, Sean Jones, Sean Rickman

04 novembro, 2011

Voto em Branco - de grande utilidade!

"Era o único candidato no boletim de voto e perdeu!"

Uma notícia diferente, que dá alguma esperança à democracia representativa, que é ainda o melhor sistema político conhecido. No Público online de hoje.

23 outubro, 2011

VENCIMENTOS QUE NAO MERECEM CORTES...


A informação vale o que vale. Chegou-me por email, não sei quem recolheu a informação, se está exacta ou não. Mas como sei que nestes casos a informação tem de ser pública, suponho que esteja certa. Porque é que há pessoas que acham que ganhar estes montantes é legítimo, não consigo entender! É no mínimo imoral. Se é legal, é necessário mudar a lei.








22 outubro, 2011

Liszt - Valse Impromptu (Cziffra)

 No Vox Nostra pus uma peça pequenina sincronizada com a partitura. Aqui uma pequena preciosidade que a tecnologia de hoje nos dá com uns clics.

15 outubro, 2011

Ranking... para que te quero!

      
"Os rankings criam uma ideia de competitividade na educação e não estou convencido que essa seja necessária. A longo prazo, a colaboração, mais do que a competição, vai gerar melhores
resultados. Aliás, a actual crise financeira revela claramente 
o que  está mal nas nossas decisões económicas, que são
tomadas só tendo em conta a competição. Mas o mais grave nos rankings é que são uma simplificação do que é uma boa escola ou do que é a educação. Portanto, a sua publicação prejudica o debate que as sociedades democráticas precisam fazer sobre os objectivos e os fins da educação. Em última instância são um prejuízo para a democracia em si mesma. Os resultados dos exames são importantes, mas são apenas uma parte da fotografia."

Gert Biesta, hoje no Público, em entrevista a Bárbara Wong

10 outubro, 2011

Elena Lasida



Para ler! Um pouco de optimismo, por uma economista.
Hoje no Público.

"É preciso pensar a economia como um lugar onde se constrói a vida em conjunto"

Por Paulo Miguel Madeira A economista, residente em França, vê a crise como uma oportunidade de realizar uma mudança de fundo que aumente a articulação entre a esfera financeira e a economia real.

Elena Lasida, que cresceu no Uruguai e vive em França, veio a Lisboa fazer a palestra da sessão de abertura da conferência Economia Portuguesa: Uma Economia com Futuro, convocada por um conjunto de investigadores e professores de Economia e outras ciências sociais com o objectivo de contribuir para a renovação do pensamento e do discurso económicos. Defende uma mudança de fundo no sistema económico, com particular incidência na lógica do sistema financeiro, e apresentou as ideias de aliança e de promessa como alternativas às de concorrência, contrato e previsão, actualmente hegemónicas.  
Elena Lasida, que cresceu no Uruguai e vive em França, veio a Lisboa fazer a palestra da sessão de abertura da conferência Economia Portuguesa: Uma Economia com Futuro, convocada por um conjunto de investigadores e professores de Economia e outras ciências sociais com o objectivo de contribuir para a renovação do pensamento e do discurso económicos. Defende uma mudança de fundo no sistema económico, com particular incidência na lógica do sistema financeiro, e apresentou as ideias de aliança e de promessa como alternativas às de concorrência, contrato e previsão, actualmente hegemónicas. 

Em que sentido deve ser a mudança?
Há um problema de coerência do sistema e a actual crise financeira mostrou uma espécie de desfasamento entre todo o sistema financeiro e a economia real. Uma das coisas que é preciso restabelecer é a articulação entre a esfera financeira e a economia real. Parece absolutamente indispensável uma maior ligação entre o sistema financeiro e o resto da economia. E, igualmente, como pensar a economia, não apenas em termos de produção de riqueza, mas também como um lugar onde se constrói a vida em conjunto, a vida da sociedade.

Qual deveria ser a nova relação entre o sistema financeiro e a economia real?
Devia-se criar uma interdependência maior. O sistema financeiro funciona de maneira completamente independente da economia real. A maior parte das empresas tem accionistas e a empresa, sobretudo, produz para poder remunerar os accionistas - e o que é prioritário não é o investimento na actividade, é a remuneração dos accionistas. Na bolsa, o critério para o sistema financeiro é o aumento dos valores bolsistas, sem qualquer relação com a evolução da economia real. Porque a bolsa funciona de modo completamente autónomo. Na economia real, a racionalidade visa calcular o que tem maior probabilidade de dar um lucro mais elevado. No sistema financeiro não é isso: o que se vai procurar é fazer como os outros, mas antes dos outros. Na bolsa, por exemplo, a especulação baseia-se no facto de que se ganha dinheiro vendendo por um preço mais caro do que se comprou. Para isso, o que é preciso é antever o que os outros vão fazer. 
Como se pode fazer com que deixe de ser assim?
É preciso controlar a especulação, é preciso criar maior relação entre o valor das acções e a economia real. É precisa uma maior relação entre o que o capital oferece e o que o trabalho oferece.

Na conferência, centrou-se nos conceitos de desenvolvimento durável e de economia solidária. Também devem ser adoptados no sistema financeiro?
É uma coisa que já existe. Há muitos bancos do sector cooperativo, mas do meu ponto de vista é preciso ir mais longe do que isso. É sobretudo preciso criar muito mais interdependência entre quem poupa e quem pede dinheiro à banca, quem pede crédito. Por exemplo, em vários bancos, hoje, ao depositar dinheiro numa conta de poupança, há a possibilidade de perguntar o que é que o banco vai fazer com esse dinheiro, onde o vai aplicar. E há mesmo a possibilidade de escolher o sector em que se quer que o banco aplique o dinheiro, ou escolher renunciar a parte do juro, para que esse juro possa ser investido em actividades de utilidade social. Isto ainda tem um impacto bastante limitado. Mas, por exemplo, o respeito pelo ambiente e pelos direitos sociais são coisas cada vez mais exigidas no investimento.

Defende que devemos pensar mais em termos de qualidade de vida do que de quantidade de produção. Como entende essa qualidade de vida?
Penso que a qualidade de vida não se põe apenas ao nível do rendimento ou do conforto material que se tem - claro que isso conta -, é também todo o tecido relacional em que se está inscrito. É se temos trabalho, se vivemos num local onde se conhecem as outras pessoas, se estamos integrados na sociedade... Nesse sentido, pode-se falar em relação.
Acredita que estas ideias podem ser aceites e ganhar força na sociedade? No final de 2008, quando o sistema financeiro ocidental estava à beira da falência, falou-se muito de alternativas para o funcionamento da economia, na regulação da finança e da economia global, mas depois pouco mudou. Parece que as pessoas querem que as coisas continuem como estão.
É verdade. É preciso conseguir mostrar às pessoas que, com um modo de vida em que se partilha mais, em que há mais tempo para estar com os outros, em que a relação tem um lugar mais importante, pode-se viver melhor. É importante que as pessoas experimentem e sintam que um outro modo de vida dá mais felicidade.

Disse que o interesse do comércio justo e do microcrédito é mostrar que é possível a economia funcionar de modo diferente do dominante. Isso pode desencadear uma mudança?
Penso que há uma capacidade transformadora, que estas realidades estão a fazer mudar as coisas. Mas não sei como isso vai acontecer. A mudança não será porque todas as empresas se vão transformar em cooperativas. A mudança é mais por, hoje, as grandes empresas colocarem a questão da democratização da empresa, da ligação empresa-cidadão, da responsabilidade social da empresa.

Defende então a ampliação da economia social e solidária...
Sim, mas não creio que se deva dizer que é um modelo que se deva generalizar. Não acredito nisso, mas acredito que se possa alargar bastante face à sua realidade actual.