08 maio, 2016

Como o cérebro cria o zero a partir do nada




Ana Gerschenfeld


06/05/2016 ­ 08:31


Ao contrário dos meros 1, 2, 3…, que contam objectos, 0 simboliza o vazio e a sua invenção foi um dos maiores avanços intelectuais da humanidade. Os processos neuronais envolvidos nesta façanha cognitiva começam agora a ser desvendados.


Na placa de Gwalior (Índia), datada de 876 d.C., o mero "270" surge quase idêntico à sua representação actual
Sociedade Americana de Matemática







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O mero zero, que representa o nada, a inexistência de algo, é fundamental para tudo o que fazemos, das contas do dia­a­dia à construção de naves espaciais, da matemática à sica à engenharia e aos mais sofisticados algoritmos informáticos. Porém, a sua invenção é relativamente recente e demorámos séculos a perceber a sua real importância e a conseguir utilizá­lo como o mero de pleno direito que é.

Como é que o nosso cérebro faz para transformar o nada, o vazio, nesse ubíquo mero que todos conhecemos e que é representado, no nosso sistema numérico, pelo símbolo 0? Uma equipa da Universidade de Tübingen, na Alemanha, acaba de dar um passo significativo na identificação das bases neuronais deste processo cognitivo.

Andreas Nieder e os seus colegas realizaram um estudo com dois macacos Rhesus que fornece, pela primeira vez, indicações concretas sobre como e onde o cérebro traduz activamente a ausência de esmulos contáveis numa categoria numérica, explica aquela universidade num comunicado. Os seus resultados foram publicados na revista Current Biology.

Mas será que os macacos Rhesus sabem contar? Sim, com treino e se o mero de objectos a contar o for demasiado grande. Acontece que as capacidades numéricas sicas o são exclusivas da escie humana: sabe­se há várias cadas que muitas escies animais possuem um sentido de mero (ou seja, uma ideia aproximada da quantidade de objectos num dado conjunto, ou numerosidade”). Experiências com ratos, por exemplo, mostraram que estes animais podem ser ensinados a distinguir entre a ocorrência de dois eventos e a de quatro.

Ratos, pombos, papagaios, golfinhos e, claro, primatas, conseguem discriminar padrões visuais ou sequências auditivas com base apenas em propriedades numéricas (…) e tamm possuem capacidades elementares de adição e subtraão, explicava, já em 1997, no então recécriado think tank online Edge, o hoje reputado neurocientista Stanislas Dehaenne, professor do Collège de France, em Paris.

Contudo, isto o se compara à nossa capacidade mental de manipular símbolos numéricos: São precisos anos de treino para incutir os símbolos numéricos aos chimpanzés (). A manipulação simlica exacta de meros é uma capacidade exclusivamente humana, acrescentava Dehaenne.


Uma longa saga


A história do zero merece ser contada. É uma história atribulada que dá a volta ao mundo, numa longa viagem de séculos, protagonizada por brilhantes matemáticos de vários continentes.

Mas, antes disso, há uma pergunta que há muito vem sendo colocada: os meros, incluindo o zero, foram descobertos” porque já existiam na natureza ou inventados” por s? A maioria dos especialistas concorda hoje em dizer que os meros foram descobertos, que o são uma pura criação da mente humana.


E quando é que o zero foi descoberto? Aí, a resposta pode parecer paradoxal: foi sem vida descoberto há muitos séculos, mas a sua natureza profunda muito mais tarde seria plenamente compreendida e domada pela mente humana.

A primeira manifestação do zero de que há registo surgiu há uns 4000 a 5000 anos na Suméria, sob forma de um par de marcas cuneiformes, afirmava em 2009, na revista Scientific American, o matemático Robert Kaplan, autor do livro The Nothing That Is: A Natural History of Zero.

Pelo seu lado, Charles Seife, autor do livro Zero: The Biography of a Dangerous Idea, (editado em Portugal pela Gradiva sob o título Zero, Biografia de uma Ideia Perigosa), o acredita nesta datação tão antiga. Houve pelo menos duas descobertas, ou invenções, do zero, explicava no mesmo artigo. A que chegou até s veio do Crescente Fértil [que incluía Suméria e Babilónia] e apareceu entre 400 e 300 a.C. na Babilónia.

A seguir, o zero terá passado da Babilónia para a Índia e para os países árabes do Norte de África antes de atravessar o Mediterrâneo e entrar na Europa. Entretanto, tamm se espalhara para o Médio Oriente e o Extremo Oriente. Quanto à segunda descoberta do zero e nisso todos concordam , foi obra dos Maias, na América Central, aconteceu de forma totalmente independente do resto do mundo e nunca chegou a sair do continente americano.

No início, o zero (nas suas diversas formas) era um símbolo utilizado, nos sistemas numéricos como o babilónico onde o valor de cada dígito num mero depende da sua posição (equivalente às nossas unidades, dezenas, centenas… , para assinalar que, numa dada posição, o havia qualquer dígito, um espaço vazio. Este uso do mero zero é crucial, uma vez que permite resolver incómodas ambiguidades que, no nosso sistema numérico, se traduziriam, por exemplo, na impossibilidade de distinguir 216 e 2016.

Contudo, o mero zero o era ainda totalmente incontorvel na ciência e tecnologia da época:

os antigos gregos conheciano mas quase o o utilizavam, mas isso o os impediu de inventar a geometria; e o sistema numérico romano o tinha zero (o que dificultava em particular a divisão), mas isso o impediu a construção de grandes obras de engenharia.


Número de pleno direito


Seja com for, foi na Índia, há menos de 1500 anos, que o zero começou a tornase um mero de pleno direito. Foi nessa altura e mesmo assim, o totalmente que o zero adquiriu a cidadania plena na república dos meros, salienta Kaplan, no referido artigo da revista norte­americana.

Aquilo que podemos afirmar com certeza é que, por volta do século VII d.C., o zero já era utilizado na Índia com o duplo significado actual, enquanto mero e enquanto valor posicional, diz ao PÚBLICO Jorge Buescu, matemático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e vice­ presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática. A primeira ocorrência registada de zero que nos chegou é numa placa exterior num templo indiano em Gwalior, na Índia, que data de 876 d.C., acrescenta. É quase arrepiante ver, numa inscrição indecifrável, surgir os algarismos que ainda




Mas a questão é que o zero é um mero tão especial e tão contra­intuitivo que, apesar de existir como mero e como valor posicional, ninguém sabia fazer contas adições, subtraões e ainda menos multiplicações e divisões que envolvessem o zero. Sabia­se que 1+1=2. Mas e 1+0?

Foram os matemáticos indianos quem estabeleceu as propriedades algébricas do zero, explica­ nos Jorge Buescu. Pode parecenos natural hoje; mas foi seguramente muito estranho olhar pela primeira vez para um mero pelo qual era impossível dividir. E no século IX, "um dos maiores matemáticos árabes, Al­Kwharizmi, escreveu um tratado sobre a arte hindu de efectuar cálculos, frisa ainda o matemático português estendendo assim o uso do zero da aritmética para a resolução de equações (o ramo da matemática a que hoje chamamos álgebra). Os árabes chamarano sifr”, palavra que daria origem a zero e cifra.

O zero entraria no Ocidente pela Itália, no século XIII, importado pelo matemático Fibonacci, tamm conhecido como Leonardo de Pisa, que o trouxe bem como todo o sistema numérico árabe (na realidade indiano) das suas viagens ao Norte de África. Mas no século XVII é que o seu uso começou a generalizase na Europa.


Contas de macacos


Voltando ao trabalho agora realizado em Tübingen, os neurocientistas treinaram dois macacos Rhesus a avaliar a numerosidade de conjuntos de pontos que surgiam num ecrã de computador. Ensinaranos a diferenciar visualmente um conjunto vazio (ou seja, com zero elementos), um conjunto com um elemento e conjuntos com dois, três e quatro elementos.

Ao mesmo tempo que os macacos executavam esta tarefa visual de discriminação numérica, os cientistas registaram a actividade neuronal em duas áreas do cérebro dos animais, situadas no lobo parietal e no lobo frontal do córtex. A segunda área recebe informação da primeira e os cientistas já sabiam, com base em estudos anteriores, que as duas regiões em causa (designadas VIP e PFC) desempenham um papel fulcral no processamento das quantidades.

Os autores constataram então que as duas regiões cerebrais em causa tinham comportamentos totalmente diferentes. Os neurónios no lobo parietal representavam os conjuntos vazios mais como uma categoria visual e portanto o abstracta , diferente da numerosidade, disse ao PÚBLICO Andreas Nieder, o líder do estudo. Pelo contrário, [a actividade] dos neurónios no lobo frontal apresentava duas características distintivas das representações quantitativas: posicionava os conjuntos vazios em relação às outras numerosidades (…) e era independente das propriedades dos esmulos visuais.

Os nossos resultados, explica ainda Nieder, sugerem que há um processamento hierárquico dos conjuntos vazios de uma região para a outra, ao longo do qual os conjuntos vazios se desligam dos sinais visuais e são integrados num connuo de numerosidade. Tudo se passa, por assim dizer, como se os neurónios da segunda área cerebral dos macacos passassem a colocar o zero no




Estes animais possuem a capacidade de conceber conjuntos vazios como sendo uma categoria quantitativa, salienta Nieder. E visto que o cérebro evoluiu para processar esmulos sensoriais, o facto de ser capaz de conceptualizar os conjuntos vazios constitui um feito extraordirio, acrescenta.

E conclui: O nosso estudo fornece o primeiro sinal do processo que o cérebro utiliza para formular conceitos [numéricos] sem relação com a experiência, para além do que é percepcionado o que é indispensável para construir uma teoria complexa dos meros. E este processo poderá constituir a raiz neurobiológica da capacidade humana de descobrir (ou inventar) o zero e transformá­lo num verdadeiro mero.


Evolução cultural


Não é por acaso que o zero tal como o concebemos hoje demorou tanto tempo a ser realmente compreendido pela mente humana. É que, para lá chegar, tivemos por exemplo de aceitar (como já mencionado por Jorge Buescu) que o era possível dividir por zero. De facto, a matemática do zero só ficou completa no século XVII, com a invenção, por Isaac Newton e Gottfried Leibniz, do chamado cálculo infinitesimal, um ramo da matemática essencial à sica.

Uma outra prova da dificuldade conceitual associada à nossa noção actual de zero é que as crianças demoram anos a perceber do que se trata. As crianças têm, primeiro, de perceber que o zero representa uma quantidade vazia capacidade, essa, que desenvolvem durante o quarto ano de vida, diz­nos Nieder. E é por volta dos seis anos que, finalmente, percebem a relação entre o zero e os outros meros pequenos e que o zero é o mais pequeno de todos os meros inteiros.

A compreensão do zero requer um alto nível de abstraão, uma vez que, enquanto mero, o zero transcende a experiência empírica, explica ainda Nieder. E é interessante constatar que os vários usos do zero ao longo da história reflectem estados mentais (níveis de abstraão) diferentes, que podem ser identificados na cultura humana ao longo do tempo.

Para Stanislas Dehaenne, foram aliás a cultura e a educação e o a evolução que, ao longo da nossa história, permitiram que o cérebro humano atingisse os níveis de abstraão que lhe conhecemos e que se cristalizaram, em particular, na matemática moderna.

Essencialmente, hermos da evolução apenas um sentido rudimentar de mero, que partilhamos com outros animais e que até os bebés possuem aos poucos meses de vida, explicava Dehaenne (autor do livro The Number Sense) numa entrevista em 2009 à Scientific American. É aproximativo

e o simlico (), mas deu­nos no entanto o conceito de mero e s a seguir aprendemos a estendê­lo com símbolos culturais (como os dígitos) e fazer aritmética de maneira muito mais precisa.

20 dezembro, 2015

O que Existe de Tão Especial Sobre o Cérebro Humano? (LEGENDADO)



Um vídeo muito esclarecedor, científico q.b. e com uma conclusão que, eu acho, se adequa bastante à época de excessos alimentares que se aproxima!






13 setembro, 2015

TCHAIKOVSKY – PIANO CONCERTO NO. 1 (LANG LANG)


Um pianista que eu acho genial, mas que gera alguma controvérsia entre os amantes da música. Neste vídeo vê-se que, para além do alto grau de concentração, há um diálogo com a orquestra, os músicos individualmente e o maestro. E há também uns olhares que envolvem o público.


10 setembro, 2015

REFLEXÕES EM TORNO DA BIOSFERA


Um texto público de Galopim de Carvalho. Muito interessante e pedagógico. Não sei onde mais foi publicado, mas parece-me que no Facebook se perde muito depressa. Boa leitura!



"O problema da origem da vida é demasiadamente complexo para ser abordado apenas no contexto da geologia. Biologia e bioquímica, dois domínios que nos escapam, têm aqui papel preponderante. 
Exclusivamente fotossintética, como foi consensualmente aceite, e/ou quimiossintética, como passou também a ser admitida, a partir de 1979 (com a descoberta de oásis de vida na de
pendência de fontes hidrotermais na fossa oceânica da Galápagos), a vida, de que julgamos conhecer razoavelmente bem a sua evolução (na sequência dos trabalhos de Charles Darwin), continua a ser um problema por resolver no que respeita a sua origem.
Esta origem e a subsequente evolução biológica até os dias de hoje são, no entanto, aceites como resultado de um processo geológico, de que desconhecemos muitos dos seus passos e, ainda, sujeito a discussão. Temos como um dado paleontológico demonstrado e aceite que essa origem teve início nos primórdios da história da Terra, tida como o único planeta do Sistema Solar que reuniu condições para tal origem e a subsequente evolução se realizassem. É, ainda, consensual a aceitação de que a vida surgiu no mar. Tenha esse extraordinário acontecimento ocorrido em águas superficiais, enriquecidas em certos gases da atmosfera primitiva, sob a acção das radiações solares, ou na total ausência de luz, nas profundezas dos oceanos e na dependência de fontes hidrotermais, a verdade é que a Terra criou estruturas capazes de se replicarem e de se modificarem (por adaptação ao meio, por recombinação genética ou por mutações) e de transmitirem essas modificações aos seus descendentes. Tais estruturas são os seres vivos e o seu conjunto designado por biosfera.
Entre os principais constituintes químicos da biosfera, encontram-se carbono, hidrogénio e oxigénio, além de, em menores quantidades, azoto, enxofre, fósforo, entre os mais comuns, todos eles relativamente abundantes à superfície do planeta terrestre, facultados pela atmosfera, pela hidrosfera e pela litosfera, incluindo a parte superior do manto através do vulcanismo. Fixados ao nível dos seres vivos, sob formas muito particulares de estruturas químicas, tais elementos integram a matéria orgânica por eles elaborada a expensas da energia radiante do Sol, sem esquecer a das comunidades vivas das profundidades oceânicas, associadas às referidas fontes hidrotermais, que nada têm a ver com a energia solar.
Os dados disponibilizados pela geologia, pela biologia e pela bioquímica permitem aceitar que a biosfera foi antecedida por um período durante o qual certos compostos orgânicos abióticos (não vivos), sob a acção de fontes energéticas (radiação ultravioleta solar, certas reacções químicas ou descargas eléctricas) e muito provavelmente na presença de minerais como as argilas (com estruturas foliares muito particulares), terão gerado algumas macromoléculas orgânicas ainda abióticas. Processos químicos complexos, terão permitido que essas estruturas macromoleculares se organizassem, dando nascimento às primeiras células. Admite-se que terá sido assim que, no decurso de um tempo imenso, se foram esbatendo as diferenças que separam o mundo inorgânico (das rochas e dos minerais) do mundo vivo.
Um dos mais antigos documentos dos primórdios da biosfera foi encontrado em rochas sedimentares carbonatadas do Arcaico de Ínsua (no SW da Gronelândia), com 3700 milhões de anos. A relação dos isótopos de carbono, 12C/13C ,aponta para que esse elemento tenha tido origem orgânica, provavelmente fotossintética. 
A vida, como se disse atrás, surgida na hidrosfera, modificou, em maior ou menor grau, a atmosfera e a litosfera em contacto, ao mesmo tempo que sofreu as suas influências, adaptando-se-lhes a cada passo. Estas interacções tiveram começo logo que a superfície do planeta se tornou habitável, com temperaturas favoráveis e água no estado líquido.
Os limites da biosfera, sendo particularmente difusos, não são passíveis de uma figuração geométrica. Todavia, entre os níveis mais elevados da troposfera (a parte inferior da atmosfera, com cerca de 12 km de espessura) e as grandes profundidades oceânicas (fossa das Marianas , com 11 034 m de profundidade), as formas de vida, embora de modo disperso, ocupam todos os ambientes exteriores e todas as latitudes do planeta. Em suspensão ou voando nos ares, nas altas montanhas, nos mares, nos rios e nos lagos, nas paisagens geladas da Antárctida, nos desertos tórridos mais áridos, nos fundos oceânicos, na dependência de fontes hidrotermais ou no interior da crosta continental (bactérias recolhidas em sondagens), a alguns quilómetros de profundidade, a vida tem encontrado sempre maneira de se adaptar aos diversos ambientes, usando as estratégias mais variadas e engenhosas, conseguidas ao longo de milhares de milhões de anos de ensaio e erro, em que as leis da física e o acaso foram os principais actores. 

A biosfera é o mais recente sistema dinâmico terrestre que capta, transforma, armazena e cede energia, mediante dois tipos de metabolismo, a fermentação e a respiração, fornecedores de energia às enzimas (proteínas com capacidade para promover e incrementar determinadas reacções químicas essenciais à vida, sem serem consumidas). A fermentação é própria dos seres mais rudimentares, autotróficos (capazes de produzir o seu próprio alimento), como as bactérias, ao passo que a respiração, muitíssimo mais eficaz em termos energéticos (cerca de 16 vezes mais enérgica do que a resultante da fermentação) caracteriza os seres mais desenvolvidos, as plantas e os animais, que representam a grande maioria da biodiversidade. Mais antiga do que a respiração, a fermentação surgiu com os procariotas (organismos unicelulares, sem núcleo diferenciado), em particular, bactérias que têm na fermentação a sua fonte energética e são aneróbias, isto é, não sobrevivem em presença de oxigénio. Os eucariotas (organismos uni ou pluricelulares cujas células dispõem de um núcleo), em particular as algas verdes e vermelhas, surgiram no Proterozoico, entre 2000 e 1400 milhões de anos, e só a partir de então pôde haver precipitação biogénica de sílica, a da opala (sílica amorfa) dos esqueletos de algumas delas. Ao contrário dos procariotas, estes organismos, para os quais a vida só é possível em presença de oxigénio, retiram a energia do meio através da respiração.
Num longo intervalo de tempo de cerca de seis centenas de milhões de anos (2000 a 1400) a biosfera, confinada ao meio marinho e apenas formada por uma microflora procariótica e aneróbica, foi substituída por outra parcialmente eucariótica. Toda a biodiversidade, quer a do presente, quer a extinta, descende dessa primitiva biosfera microbiana procariótica e aneróbica de duração cinco a seis vezes mais longa. O registo das sucessivas etapas percorridas pela biodiversidade, desde os primórdios da vida na Terra, está, na maior parte, contido nas rochas sedimentares. Tal registo envolve o conjunto dos fósseis, cujo estudo constitui um dos ramos mais interessantes das ciências da Terra – a PALEONTOLOGIA.
O contributo da biosfera na meteorização, na erosão e na génese das rochas sedimentares, em particular, é imenso, numa interrelação vasta, complexa e velha de mais de 3700 milhões de anos. Importante e bem visível é, ainda, o seu papel na edificação das estruturas esqueléticas (conchas de moluscos, corais, entre outras) que estão na origem da maioria dos calcários e de rochas siliciosas, como os diatomitos e os radiolaritos. 

Litosfera, atmosfera, hidrosfera e biosfera evoluíram em conjunto, trocando entre si energia e matéria (massa), reciclando-se tantas vezes quantas lhes permitiu uma tal imensidade de tempo. Por exemplo, o carbono perdido pelo manto através da litosfera (no vulcanismo) passa à atmosfera e à hidrosfera sob a forma de dióxido de carbono, gás de onde as plantas terrestres e as algas marinhas o retiram na sua actividade fotossintética, integrando-o na biosfera, devolvendo-o, depois, à litosfera sob a forma de carbonatos, nos calcários e dolomitos. Incluído nos alimentos (hidratos de carbono, lípidos e prótidos) dos animais, parte deste carbono volta à atmosfera como dióxido, quer por via da respiração, quer, após a morte do animal, por decomposição do respectivo corpo. Uma outra parte do carbono, em especial o incluído nas plantas terrestres e no fitoplâncton do passado geológico, foi devolvido à litosfera sob a forma, respectivamente, de carvão e de petróleo. Quando hoje as centrais termo eléctricas queimam carvão, fuel ou gasóleo estão a devolvê-lo à atmosfera, o mesmo fazendo automóveis e aviões ao consumirem gasolina.
Biodiversidade, expressão de uso relativamente recente e frequente entre biólogos, ambientalistas e profissionais da conservação da Natureza, exprime a imensa multitude de diferentes indivíduos (espécies, subespécies, variedades, raças, etc.) que constituem a biosfera. A biodiversidade abarca hoje mais de dois milhões de espécies animais e vegetais conhecidas e (acredita-se) cerca de três milhões por descobrir e descrever. O Homo sapiens é apenas uma espécie no seio de tão grande e complexa comunidade viva. Em virtude das suas faculdades intelectuais, diz-se que está no topo dessa complexa rede de cadeias. Por esse facto, as suas capacidades de intervenção nos processos naturais, biológicos e geológicos, são hoje imensas. Pelas mesmas razões, as suas responsabilidades são máximas no curso da Natureza, onde chegou tarde e onde, em tão pouco tempo, já causou danos sensíveis e, muitos deles, irreparáveis."


António Galopim de Carvalho, publicado no Facebook em 27/08/2015

15 março, 2015

Los jesuitas eliminan las asignaturas, exámenes y horarios de sus colegios

       Estas são o género de medidas a que se deve prestar atenção se estivermos mesmo interessados na questão da educação! Manter um sistema educativo quase igual ao do século XIX e totalmente igual ao do século XX é o mesmo que ter uma parte da sociedade a puxar para o passado e é empenhar o futuro de todas e cada uma das crianças. E não estou só a falar de Portugal!



Barcelona, 5 mar (EFE).- Los colegios de jesuitas de Cataluña, en los que estudian más de 13.000 alumnos, han comenzado a implantar un nuevo modelo de enseñanza que ha eliminado asignaturas, exámenes y horarios y ha transformado las aulas en espacios de trabajo donde los niños adquieren los conocimientos haciendo proyectos conjuntos.
Los jesuitas, que en Cataluña cuentan con ocho colegios, han diseñado un nuevo modelo pedagógico en el que han desaparecido las clases magistrales, los pupitres, los deberes y las aulas tradicionales, en un proyecto que ha comenzado en quinto de primaria y primero de ESO en tres de sus escuelas y que se irá ampliando al resto.
"Con el actual modelo de enseñanza tradicional, los alumnos se están aburriendo y están desconectando del sistema, sobre todo a partir de sexto de primaria", ha explicado el director general de la Fundación Jesuitas Educación (FJE) de Cataluña, Xavier Aragay.
El nuevo modelo incluye la creación de una nueva etapa intermedia entre la primaria y la secundaria, que la conforman los cursos quinto y sexto de primaria y primero y segundo de ESO.
Para llevar a cabo el proyecto, que lleva por nombre "Horizonte 2020", los jesuitas han derribado las paredes de sus aulas y las han transformado en grandes espacios para trabajar en equipo, unas ágoras en las que hay sofás, gradas, mucha luz, colores, mesas dispuestas para trabajar en grupo y acceso a las nuevas tecnologías.
En los tres colegios que están experimentando esta novedad han juntado las dos clases de 30 alumnos en una sola de 60, pero, en vez de un profesor por cada 30, tienen tres profesores para 60.
Los tres profesores acompañan todo el día a los alumnos y tutorizan los proyectos en los que trabajan, a través de los cuales adquieren las competencias básicas marcadas en el currículo.
"No hay asignaturas, ni horarios, al patio se sale cuando los alumnos deciden que están cansados", ha explicado Aragay, que, en los seis primeros meses de experimentación, ya ha constatado que "el método funciona" y ha reanimado a los estudiantes.
"Transformar la educación es posible", ha remarcado el director general, que reconoce que el cambio es "radical" y que dos de cada tres de los 1.500 profesores de sus escuelas ha estado a favor.
Según Aragay, "en la escuela es donde más se habla de trabajo en equipo y donde menos se practica", cosa que se soluciona con este método, "que también palía unos currículos excesivos que nunca se imparten completos".
Antes de implementarlo, los jesuitas recogieron 56.000 ideas de alumnos, padres y madres y profesores para mejorar la educación.
"Educar no es sólo transmitir conocimientos", ha señalado el director general adjunto de la FJE, Josep Menéndez.
El proyecto impulsa "las inteligencias múltiples y sacar todo el potencial" de los alumnos y que hagan las actividades de aprendizaje según sus capacidades.
"Hemos transformado la educación para que el alumno sea el protagonista, para que haya verdadero trabajo en equipo y los estudiantes descubran cuál es su proyecto vital, qué quieren hacer en la vida y enseñarles a reflexionar, porque van a vivir en una época que les va a desconcertar", ha argumentado Aragay.
Los alumnos comienzan la jornada con 20 minutos de introspección y reflexión para plantearse los retos de la jornada y finalizan con otros 20 minutos de discusión sobre si han conseguido los objetivos.
Las asignaturas han sido sustituidas por proyectos. "Por ejemplo, si hacemos un proyecto sobre el imperio romano, pues aprendemos arte, historia, latín, religión y geografía", ha detallado Menéndez, y si hay que aprender raíces cuadradas para llevar a cabo otro proyecto, los alumnos pueden acudir a las unidades didácticas.
"Aprenden mucho mejor si ven que lo que aprenden tiene una aplicación práctica", ha defendido Aragay.
Los proyectos, en los que también se implican padres y madres, se realizan un 33 % en catalán, un 33 % en castellano y un 33 % en inglés.
Aunque no hay asignaturas, para cumplir con lo establecido legalmente también ponen notas, pero puntúan primero las competencias de cada alumno y luego, mediante un algoritmo, las transforman en notas por materias para que consten en el expediente.
Según Aragay, en los seis meses de experiencia han encontrado casos de alumnos que "antes se inventaban que tenían fiebre para no acudir a clase y ahora quieren venir aunque tengan fiebre".
Con esta nueva pedagogía, que también aplican a los más pequeños de P3 y P4, "en vez de mirar el BOE o el DOGC, miramos la cara de los niños y les ayudamos a desarrollar su proyecto vital, a descubrir sus talentos, a encontrar sentido a lo que hacen, a lo que quieren conseguir, a saber interpretar, a reflexionar, a cuestionar. Junto con la familia e internet, intentamos construir personas".

06 janeiro, 2015

BWV: Um tour pelas obras de J.S. Bach


Um vídeo muito bom, que mostra bem a versatilidade, criatividade e diversidade da obra de Bach.




07 dezembro, 2014

É preciso adoptar uma atitude utópica realista



Uma entrevista a Slavoj Zizek, por Vítor Belanciano, na Revista do Público.
Vale a pena ler até ao fim. Mesmo que se tenha opiniões diferentes. Faz pensar, em coisas importantes e sérias e não na forma ligeira como alguns programas, supostamente debates sérios, veiculam pomposamente umas "opiniões".


«No fim da conversa diz-nos que não gosta propriamente de viver entre
aeroportos, hotéis, seminários, palestras ou conferências — “odeio pessoas,
do que gosto mesmo é de passar o dia sozinho, sem grande coisa para fazer,
embora passe o tempo a trabalhar” —, mas é isso que o filósofo e teórico cultural esloveno Slavoj Zizek tem feito nos últimos anos.
Há 15 dias esteve no Porto, onde recebeu a medalha de honra da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto e proferiu a conferência A Liberdade
de Uma Escolha Forçada, com o espaço a revelar-se pequeno para a multidão
que fez fila para o ouvir. Nascido em Ljubljana em 1949, é um dos mais activos intelectuais públicos da actualidade, tendo publicado dezenas de livros — em Portugal, desde 2007, é possível ir encontrando as suas obras, que vão do pensamento político à análise da sociedade contemporânea.
Bem-humorado, sagaz e complexo, tem também inúmeros detractores que não lhe
perdoam a popularidade, a forma como cruza saberes, o lado provocatório.
Quando lhe recordamos isso, ri-se. “O que hei-de fazer? Por vezes tentam
desacreditar-me das mais diversas formas, mas passo à frente.”
É de esquerda, mas é um crítico da esquerda europeia que se contenta com “o capitalismo global neoliberal de rosto humano”, dizendo que vivemos numa ilusão democrática onde as escolhas, quando se trata de economia ou política, são extremamente condicionadas por um sistema capitalista em autodestruição. “Temos liberdade individual, mas a organização das nossas sociedades está cada
vez mais fora do nosso alcance”,reflecte.
     Esta semana estreou-se em Portugal o segundo documentário em que é protagonista — O Guia de Ideologia do Depravado, realizado por Sophie Fiennes — e prepara já um terceiro, à volta de Deus. Diz que não viu nenhum deles — “fi-
co horrorizado ao ver os meus tiques”, afirma — embora aí se ocupe de uma das
suas paixões, o cinema, para mostrar que a ideologia faz parte da nossa experiência diária, sendo preciso perceber as suas inconsistências. “Agrada-me
aplicar teorias de alguma complexidade a tópicos vulgares, mas todos os elementos têm de participar numa lógica inerente comum”, justifica.
    Tem um estilo de comunicar inigualável, sempre agitado, esfregando o nariz ininterruptamente — “os meus piores inimigos pensam que me drogo”, provoca,
“mal sabendo eles que nem fumo ou bebo, embora fique nervoso logo pela manhã”, diz-nos, antes de se despedir com uma gargalhada e uma máxima que utiliza nas conversas com jornalistas: “Dou-lhe total liberdade para manipular as minhas palavras.”

Está em Portugal num momento particular. Sabe certamente que o ex-primeiro-ministro José Sócrates foi detido.
Sim, até brinquei, ontem, na conferência, com o assunto, porque quando cheguei parecia que estava numa realidade paralela onde o Porto era Atenas, na antiga Grécia: Sócrates tinha sido detido e a Academia de Platão encerrava devido
às medidas de austeridade… [risos]. Que dizer? Se há corrupção, tem de ser averiguada. Infelizmente, não é novidade nos nossos países. Uma decisão desse género nunca é neutral, mas não tenho “histórico” para avaliar o que se passa.
Uma parte dos políticos das nossas democracias será corrupta, mas ainda não estamos tão mal como na China. Quando lá estive, constatei muitos exemplos de corrupção, mesmo entre ministros, embora os meus amigos chineses leiam isso mais como um sintoma — ou seja, o ponto não será tanto a corrupção, mas qual das facções tenta enfraquecer a facção rival.

De uma forma geral, quando situações de corrupção são expostas, tende-se a
personalizá-las, evocando a moral dos prevaricadores. Até que ponto não se
cria assim uma cortina que nos impede de desmontar as complexidades de
ordem sistémica, as teias de poder, o contexto de relações que permitem ou
abrem espaço a essa corrupção?
Concordo totalmente. Concentramo-nos na árvore, perdendo de vista a floresta. Quando a crise financeira rebentou em 2008, o ultraespeculador Bernie Madoff
foi preso por causa de uma megafraude financeira, mas não me agradou a focagem sobre ele. Claro que há banqueiros infractores. A questão é porque é que lhes é permitido que actuem daquela maneira. É mais fácil culpar esta ou aquela pessoa,
mas todos sabemos que prevaricadores como Madoff existiram sempre. Claro que
deve ser julgado, mas mais importante é perceber a complexidade sistémica para
a transformar, de contrário, estaremos sempre perante pessoas como ele. Quando
grandes bancos de investimento, do género Lehman Brothers, são tratados
continuadamente com impunidade e a atenção é colocada numa pessoa, é necessário interrogarmo-nos.

O caso de Bernie Madoff  é até revelador das contradições do capitalismo. Sendo presidente de um fundo de investimento e responsabilizado por fraude financeira, era também um conhecido filantropo.
Exactamente. Por um lado roubava, por outro era filantropo. E isso devia fazer-nos pensar: como é que o capitalismo assimila cada vez mais a filantropia e a caridade, não apenas como idiossincrasia, mas como algo inerente ao próprio
sistema. Sabemos que Bill Gates é um competidor feroz e tem uma estratégia
extremamente agressiva, cobrando imenso pelos programas da Microsoft, mas ao mesmo tempo dissemina generosidade. É uma caridade ambígua — dá milhares
de computadores aos países subdesenvolvidos, mas ao mesmo tempo espera que
eles comprem os programas da Microsoft. Claro que é melhor que Bill Gates
gaste parte dos seus milhões no tratamento de doenças em África do que nada. O problema é que essa não é, globalmente, a solução. A desigualdade cresce mais
e os mais ricos tendem a manter a situação sob controlo dando um quinhão aos mais desfavorecidos, que acaba por ser uma forma de reproduzir a situação que
gerou essa brutal desigualdade.

A tentação é quase sempre responsabilizar este ou aquele político e promover pequenos reajustes, mas quem ousa proclamar que o sistema  actual está esgotado é imediatamente desautorizado se não tiver uma alternativa no bolso.
Sim, a cilada consiste em criar a ideia de que  não existem alternativas ao que temos hoje. Do ponto de vista tecnológico, tudo parece possível, viajar pelo espaço, clonar, fazer crescer órgãos, mas nos terrenos da sociedade e da
economia dizem-nos que quase tudo é impossível. Aumentar os impostos aos mais
ricos? Impossível. Mais dinheiro para a saúde? Nem pensar. E a maior parte da esquerda aceita esta disposição. Mas, com o capitalismo em crise permanente, só nos resta encontrar outro caminho. A esquerda moderada não deseja mais que o mesmo capitalismo da direita, mas num registo restaurado. Não creio que seja por aí. Culpar pessoas ou atitudes também não basta. É preciso ir mais longe porque os problemas são sistémicos. Hoje é até fácil ser moralista anticapitalista. Em qualquer jornal se pode ler que determinada companhia polui o ambiente ou
permite o trabalho infantil. Aponta-se o dedo a pessoas ou a empresas pouco responsáveis. A moral desfoca a discussão. Em 2008, o Vaticano declarou que não estávamos a assistir a uma crise do capitalismo, mas a uma crise moral.
Hoje sabemos, por exemplo, que o banco do Vaticano detinha contas da máfia. No interesse da moral, precisávamos de menos moralismo... [risos]. Nunca nos devemos esquecer da ambiguidade da moral. É uma situação que alguma direita
gosta de manobrar, atacando a democracia como sendo imoral, corrompida,
para assim legitimar lideranças musculadas.

Nas diferentes formas de acção colectiva dos últimos anos nascidas na rua (Occupy Wall Street, Indignados ou os protestos no Brasil), apesar das
características únicas de cada uma dessas situações, sentia-se que nesses
protestos as pessoas sabiam apenas o que não queriam. Existia mal-estar, mas
ninguém parecia saber o que fazer a partir daí.
É verdade. Não há respostas fáceis. Ninguém as tem. Muito menos aqueles que detêm o poder. Veja-se a Europa: cegos lideram cegos. As políticas de austeridade são uma espécie de superstição. Uma fuga para a frente de quem não
quer encarar uma situação complexa. A austeridade é apenas uma forma de evitar
ir à verdadeira raiz da crise. Dito isto, tenho reticências em adoptar uma atitude anti-Alemanha, como se fossem os maus da fita. São, até certo ponto. Mas é como se o sistema os puxasse para essa estrada. E quem é que tem um bom sistema automático e funcional para propor? A situação é tensa, também por causa desta
inércia da Europa. O movimento Occupy Wall Street teve o mérito de ser o primeiro que problematizou o sistema enquanto tal e era genuíno. Não era o protesto clássico de esquerda ou uma multidão a gritar contra a guerra ou o racismo. Em segundo lugar, existia uma consciência de que a democracia actual,
institucionalizada e multipartidária, já não chega para resolver os problemas.
De alguma forma ainda bem que não existiu esse desejo de traduzir rapidamente a energia do protesto numa série de propostas concretas. Vivemos num mundo que
passa o tempo a querer que actuemos. Às vezes, essa é uma forma perversa de impedir que pensemos. Temos de ser pacientes. Transformámos — com a reforma
de Bolonha — a educação superior numa máquina de resolução de problemas, formando especialistas para os resolver. Precisamos de algo mais radical: gente
que questione a forma de ver os problemas. A sua verdadeira resolução começa
aí.

Nas últimas semanas, em Portugal, tem-se falado muito do partido Podemos,
porque está à frente das intenções de voto em Espanha, e você tem
acompanhado de perto o Syriza na Grécia. Ambos podem alcançar o poder
nas próximas eleições nos seus países. Tem dito que é necessária uma nova
esquerda que atribua novos sentidos ao mal-estar de que falávamos. O que
projecta que poderá vir a acontecer?
Simpatizo com o Podemos, mas conheço melhor o Syriza. O Podemos elegeu
como slogan a palavra “dignidade”. É uma boa escolha, mas é preciso que
estejam conscientes das ambiguidades. Existe hoje uma grande luta pelo signifi-
cado dos termos. Acontece com a palavra “democracia”. Todos os políticos a evocam. Mas o que é que cada um quer dizer exactamente?  A expressão “dignidade” tem esse problema também. É um bom ponto de partida, mas a questão é como se desenvolve esse conceito? Significa mais serviços sociais? Mais cuidados de saúde? Imaginando que alcançam o poder, o que farão exactamente no dia seguinte? O que significa dignidade quando se tem de lidar com a burocracia de Bruxelas? Até onde se pode ir? Essa é que é a verdadeira questão. Na Grécia, o Syriza está consciente da situação trágica que os rodeia.
Se vencerem, sozinhos ou em coligação, espera-os um contexto clientelar, muita
corrupção, 15% dos membros da polícia pertencentes ao partido de extrema-direita Aurora Dourada e têm o capital contra eles. Também estão proibidos
de implementar a tradicional política de esquerda, controlando o capital, porque
na União Europeia terão de permitir a circulação do mesmo. É curioso porque
passam o tempo a tentar convencer o Ocidente de que são razoáveis, quando me 
parecem ser a única esperança da Grécia. A regressão social naquele país é inacreditável. Nos campos, voltou-se a um tempo ancestral, com famílias enormes, onde os filhos não abandonam os pais, por razões económicas.

Se algum desses partidos alcançar o poder, confrontar-se-á, inevitavelmente,
com a gestão das elevadas expectativas. Funcionarão como laboratório. Todos
os olhos se focarão neles. Barack Obama sofreu do mesmo.
Curioso referir Obama. De alguma forma ele  antecipou o Podemos, proclamando “Yes,  we  can”. Mas tem razão. Os esquerdistas que o atacam como se fosse um traidor esperavam o quê? Que introduzisse o socialismo nos Estados Unidos?
Ele, modestamente, aqui e ali, tentou-o, com o plano de saúde, por exemplo. Mas teve de enfrentar a oposição feroz da direita. Obama é o caso sintomático de como os políticos tradicionais estão manietados. Têm um espaço de actuação limitado.
Mesmo noutros contextos onde a esquerda mais radical chegou ao poder, como na África do Sul, a esperança foi dando lugar a alguma desilusão. As coisas melhoraram, é certo, mas muitos problemas mantêm-se. Ninguém tem uma fórmula. O que fazer? Certamente que a solução não é regressar a nenhuma velha
forma de autoritarismo. Não creio que o presente sistema perdure, nesta deriva
em que se encontra. A solução não deverá ser regressar a uma forma qualquer
idealizada de passado, mas não tenho uma solução fácil. Sou um esquerdista
pessimista. Posso lançar perguntas, mostrar o que não funciona, perfilar problemas, mas não tenho respostas de bolso.

Existe também o perigo de esses partidos chegarem ao poder e falharem, sendo usados como exemplo para não se repetirem experiências idênticas. Aí
serão acusados — como os poderes estabelecidos já fazem, aliás — de ser
sonhadores ou populistas.
Sim, mas não será a ideia de crescimento económico infinito, na qual baseámos a nossa organização social, a maior das fantasias? Os partidos no poder quando usam esse tipo de argumentações, provocando medo nas pessoas, deviam meter a mão na consciência, porque eles, sim, são um enorme falhanço. Os verdadeiros
sonhadores  são os que pensam que as coisas podem continuar infinitamente como
estão, com mudanças superficiais. Mas é claro que existem perigos. Os meus
amigos da Alemanha dizem-me que as forças financeiras mais conservadoras da Europa desejam que o Syriza chegue ao poder. Porquê? Para promoverem um completo fiasco. Qualquer coisa que sirva de exemplo, para mostrarem que não estão para brincadeiras. Mas qual a solução? É preciso arriscar. Napoleão dizia:
ao ataque e depois se verá… [risos]. Não podemos ser estúpidos ou pueris, mas temos de ir tentando, passo a passo. Estou saturado da esquerda marginal que não só sabe que nunca alcançará o poder, como secretamente nem sequer o deseja alcançar. A tragédia da esquerda nos últimos 50 anos é que falhou e escreveu
excelentes explicações das razões que levaram a esse falhanço… [risos]. Os
esquerdistas são os melhores teóricos do seu próprio falhanço. O que admiro no Syriza ou no Podemos é a tarefa quase heróica de quererem seriamente alcançar
o poder. Veremos o que acontece. Temos de começar de alguma forma, em algum lugar. Temos de aprender com os erros. O que também me agrada nesta nova
esquerda é que não se vislumbra qualquer entação autoritária. E isso é bom.
Por outro lado, esta ideia de que o capitalismo global domina tudo é um mito. Há boas  notícias — ele não é consistente, é contraditório, contem divisões internas e com a estratégia política adequada é possível ir desenhando novas soluções. Olhe-se para a governação de Lula da Silva no Brasil. Ele percebeu que o capitalismo não é esse sistema hegemónico. Mesmo com os problemas de corrupção, os meus amigos mais radicais de esquerda admitem que mudou a
situação dos mais necessitados.

Tem afirmado que os poderes políticos locais não têm controlo sobre as
dinâmicas globais. Ou seja, o problema hoje é que não existem mecanismos
reguladores globais, é isso?
É. Existem demasiados pontos críticos: a ecologia, as formas de exclusão social,
a propriedade intelectual, os fluxos financeiros ou a biogenética. São problemas
globais e a questão é  como podem ser controlados. Os mecanismos democráticos são hoje insuficientes para enfrentar o tipo de conflitos que se posicionam no
horizonte. A biogenética, por exemplo. Quem a controlará? Por uma estranha coincidência, estive presente numa mesa-redonda onde estavam grandesfiguras
da Academia Chinesa das Ciências do Instituto de Biogenética. Às tantas, deram-me um programa com os seus planos. Fiquei horrorizado. A ideia é regular, não só a saúde física, como a mental. Não os censuro. Toda a gente está a fazer o mesmo.
Os ecos que chegam dos EUA ou da Rússia não são muito diferentes. Já não se trata de tentar uma “lavagem cerebral” através de propaganda. É algo mais literal. Trata-se de tornar as pessoas mais apáticas ou mais agressivas, conforme os interesses em jogo. Quem controlará tudo isto? E a propriedade intelectual? Como reorganizar a economia legal na Internet? Precisamos de medidas globais. Quem as produzirá? Não vislumbro uma solução fácil. O problema hoje não é a democracia local, são as novas formas de organização global. Como tratar a ecologia? Como travar os desvios financeiros? Através de iniciativas locais?
Impossível. Necessitamos de iniciativas globais de grande envergadura.

Alguns países, como a China ou a Coreia do Sul, estão a viver um período
de grande crescimento económico. Parece-lhe possível que o “capitalismo
autoritário asiático”, como lhe chama, se venha a tornar no modelo a seguir?
Pelo menos, hoje, personificam uma das tendências. Vivem-se tempos loucos. Estive recentemente em Seul, na Coreia do Sul, e fazia um discurso sobre a crise
global quando, para minha surpresa, se começaram a rir. “Qual crise?”, perguntavam-me. E tinham razão. Eles estão a estourar, bem como a China ou Singapura e até a Indonésia. Mesmo alguns países da América Latina ou os EUA
também se estão a safar. Quem parece estar em crise é a Europa Ocidental. Na Coreia, diziam-me: se olharmos para o globo, constatamos que a maior parte dos países está melhor do que nunca. Olhe-se para Angola. Como é evidente, estou consciente dos horrores de Angola, mas pondo as coisas de forma irónica é como se estivessem a colonizar Portugal, comprando aqui muitas empresas.  Os países que têm sucesso hoje praticam um capitalismo violento, mas com um papel
muito importante do Estado. Ou seja, vivemos num tempo em que aquilo a que chamamos, erradamente, “valores capitalistas asiáticos” (que não é outra coisa senão uma forma de capitalismo autoritário) emerge mais eficiente nos termos capitalistas do que o capitalismo europeu liberal e democrático.  Essa é a ironia da China. Os comunistas são mais eficazes para o desenvolvimento do capitalismo. O capitalismo asiático é mais dinâmico  e produtivo que o nosso. E quanto menos funcionar democraticamente melhor. Estamos a assistir à instauração de uma nova ordem que vai alastrando. Pelo menos pode dizer-se que existe algo no capitalismo contemporâneo que o está a conduzir na direcção da
diluição da democracia. A Rússia de Putin é outro exemplo, misto de modo de produção capitalista e Estado autoritário. E nesse contexto todo o legado europeu
em termos de igualdade, direitos humanos, feminismo ou solidariedade social
é descartado.

Nesse cenário, os mecanismos democráticos vão-se tornando cada vez mais irrelevantes, podendo contribuir para sociedades cada vez mais desiguais?
Sim. O capitalismo está a cavar a sua própria sepultura. Não creio que vá suceder uma catástrofe imediata, mas a prazo o que poderá acontecer é o desaparecimento gradual da democracia.  Não falo de um golpe fascista. Odeio os pseudo-esquerdistas que, mal vislumbram uma tentação autoritária, começam a gritar que o fascismo está de regresso, que é uma forma de não nos confrontarmos com uma análise mais real. É a própria estrutura do sistema que não se reproduz de forma autenticamente democrática. Vivemos numa espécie de ilusão democrática.
 As decisões-chave, em termos estratégicos e financeiros, são nebulosas. Não existe debate. É tudo feito em segredo. É esta a situação perigosa da qual nos aproximamos. Apesar de todo o discurso liberal que nos rodeia, vivemos numa das sociedades mais controladas de todos os tempos. Por um lado, temos a liberdade individual — nos costumes, no sexo, no hedonismo, podemos viajar (se
tivermos dinheiro) e por aí fora. Enfim, temos um leque alargado de escolhas. Mas ao mesmo tempo temos uma estrutura global que não é transparente e que parece ser inamovível e isso é preocupante.  Continuo a acreditar na Europa — apesar de
sentir que está em perigo, dividida entre os tecnocratas e os nacionalistas anti-imigrantes —, mas ela é a grande perdedora nesta luta entre capital global e democracia global. As ideias europeias de igualdade, democracia, liberdade e
direitos humanos são reflexo de uma certa visão de uma sociedade justa e livre.
Se a Europa se desvanece, se o seu papel se perde, o que a substituirá?

“Por vezes, os milagres acontecem”, para o parafrasear.
Sim... [risos]. Sou totalmente pró-Europa, apesar de estar na moda ser anti-europeu. Mas há que tentar a mudança a sério. Sou um esquerdista pragmático que
aceita o jogo. Não sou um esquerdista louco que espera pela grande revolução.
Se esperamos pelo momento certo para uma revolução, ela nunca acontecerá por
definição. É preciso adoptar uma atitude utópica realista. Uma série de coisas
exigem mudanças radicais, mas não se pode desejar que aconteçam de forma directa. Começa-se com algumas mudanças, e depois vai-se indo um pouco mais
longe, e mais longe ainda e assim sucessivamente. Por outro lado, sim, os milagres acontecem. Quem esperava a Primavera Árabe? Não sejamos cínicos.
Existe a tentação de dizer que está tudo na mesma. Não é verdade. Existem poderes militares e por aí fora, mas a sociedade civil acordou. Existem sindicatos, organizações feministas ou estudantis e isso é uma força considerável.
Mesmo na Turquia. É verdade que Erdogan [Presidente turco] está cada vez mais
autoritário, mas ao menos agora sabemos quem ele é verdadeiramente. E isso é bom. Muitas vezes, as pessoas dizem desejar a mudança, mas realmente não a querem, receiam-na. Querem mudar, mas em segurança. Não sei se é possível. Por vezes, temos de saltar para o desconhecido. Querem que alguém lhes diga o que fazer, mas mantendo a aparência de que são elas a decidir... [risos]. É difícil ser realmente livre, porque se tem de assumir completamente as responsabilidades

pelas decisões. Antes da Revolução de Outubro, Trotsky encontrou-se com Lenine, e este terá dito: “Estou muito preocupado, o que nos acontecerá se falharmos?”, ao que Trotsky terá respondido: “Pois eu estou muito mais preocupado com o que nos acontecerá se vencermos!”… [risos]. E Trotsky tinha razão. A maior parte das vezes estamos preparados para o falhanço, arranjamos
justificações e tal. O pior é quando se ganha. Aí não existem desculpas para não se fazer o que realmente se deseja fazer.»

























14 setembro, 2014

Água em garrafa A4

A MemoBottle é uma garrafa de água que te permite economizar espaço na carteira. É um projecto de design do australiano Jesse Leeworthy e do californiano Jonathan Byrt



Esta garrafa é reutilizável e tem o tamanho de uma folha de papel

Texto de Tânia Durães • 08/09/2014 - 17:01



A MemoBottle é um projecto fundado pelo designer Jesse Leeworthy e pelo consultor financeiro Jonathan Byrt, que vem redefinir a forma da garrafa de água comum, ao apresentar uma configuração nova e plana que ocupa menos espaço na carteira, ao contrário das volumosas garrafas de água tradicionais.

Jesse e Jonathan lançaram uma campanha de “crowdfunding” no Kickstarter, que estará a decorrer até ao dia 12 de Outubro, de forma a angariarem o capital necessário para a execução do projecto.

A equipa MemoBotlle alterou muitos elementos que eram característicos da tradicional garrafa de água, a forma deixou de ser cilíndrica e passou a ser semelhante à de um bloco de notas, com cerca de 30 milímetros de espessura. Com isto, Jesse e Jonathan conseguiram mais de 58 mil dólares (aproximadamente mais de 44,1 mil euros) de financiamento no Kickstarter, quando inicialmente tinham pedido 15 mil dólares (aproximadamente 11,4 mil euros).

Jesse Leeworthy e Jonathan Byrt tinham como objectivo criar um produto que estivesse em equilíbrio com a sustentabilidade ambiental e com a melhoria da qualidade de vida da sociedade. De acordo com a PRNewswire, há estudos sugerem que são consumidas cerca de 1500 garrafas de água, não recicladas, por segundo, nos EUA e que apenas 20% destas garrafas são recicladas.

A MemoBottle é projectada para ajudar a reduzir o número de garrafas de água de plástico, que estão a ter um efeito devastador sobre o meio ambiente. Esta garrafa reutilizável é vista, por parte dos seus criadores, como uma alternativa mais amiga do ambiente. “As garrafas de plástico reutilizável são 80% mais ecológicas do que as tradicionais garrafas de água.

A MemoBottle é feita com um plástico transparente, fino, resistente e livre de Bisfenol A ou BPA, uma substância química prejudicial à saúde, é lavável na máquina e tem uma grande durabilidade”, conta a equipa da MemoBottle à PRNewswire.

Esta garrafa de água reutilizável é inspirada na forma e nas várias dimensões de uma folha de papel e por essa razão é possível encontrá-la nos formatos A5 – 148x210 milímetros (com capacidade para 750 mililitros), A4 – 210x297 milímetros (com capacidade para 1,25 litros) e Letter – 216x279 milímetros (com capacidade para 1,25 litros). Ainda não há uma data específica de quando a MemoBottle começará a ser comercializada, nem informações sobre qual é o preço que estará associado a este produto. 

21 agosto, 2014

Cinco segredos para melhorar a capacidade de aprender e de memorizar



5 Secrets to Improve Learning and Memory

"I’ve already posted a research round-up on becoming an expert at anything. That was focused on the big picture of how to master something over a period of years.

Yeah, It’s Gonna Take Effort
This time let’s get less macro and focus more on the nitty-gritty of what you need to do when you sit down, roll up your sleeves and try to learn something new.
No, I’m not going to lecture you like Grandpa about the virtues of hard work, but your brain takes in a lot every day and remembering everything isn’t realistic. Research consistently shows effort is how you let your grey matter know something is worth retaining.
The more effort you expend, the better you learn:
…undergraduates in the study scored 29 to 63 percentage points higher on tests when they used study techniques like recording complete notes, creating comparative charts, building associations, and crafting practice questions on their screens.
You’re not going to learn much passively. Re-reading material four times was not nearly as effective as reading it once and writing a summary. Even just writing by hand is beneficial. More effort, better results.
There is a system for developing a near-photographic memoryand it works, but takes some practice.
The two key things to remember here are testing yourself andspacing out learning over time.
In more than two dozen studies published over the past five years, he has demonstrated that spaced repetition works, increasing knowledge retention by up to 50 percent. And Kerfoot’s method is easily adapted by anyone who needs to learn and remember, not just those pursuing MDs.

Get Invested

Feeling a connection to the material is powerful. Finding an angle on the subject that makes you curious about it is gold.
Is it too boring? Get invested by betting on your ability to remember it. Yeah, like gambling. Promise yourself a reward before you go to bed and you’ll learn more as you sleep.
Don’t just try to drill knowledge in, connect it to things you already know. Really try to understand it, not just memorize it. This is why teaching someone else is a great way for helping you learn. If you can’t explain it, you don’t know it.

Steroids For Your Brain

Save the healthy eating for another time, coffee and a donut is steroids for your brain. Yes, it’s science. Yes, Red Bull isn’t just for partying, it’s also for studying.
I don’t want to recommend cigarettes to anyone but if you’re already a smoker, light up before you learn. Nicotine does improve cognitive performance.

Fundamentals

We’re always looking for a magic bullet. Truth is that just as with getting in shape, fundamentals like getting enough sleepand regular exercise have far greater effects than well-marketed supplements. Seriously, naps after learningare powerful.
You need to calm down and concentrate. Turn off the music. No group studying. Stop kidding yourself — you can’tmultitask. (Guys, when studying stay away from pretty girls. Don’t even think about them.)

Little Tricks

There are lots of little tips that can help as well:
Too lazy for all this? Get a good luck charm. Seriously, theywork."

14 agosto, 2014

António Damásio - Entrevista Exclusiva


Uma entrevista fundamental. As neurociências, o cérebro, a Humanidade... mas antes de tudo a Vida!
A montagem da entrevista está muito bem feita e permite parar e pensar no que se acabou de ouvir.