17 junho, 2013

A greve geral de professores de 17 de Junho 2013

Esta greve poderia ter sido a GREVE das GREVES, se os sindicatos se tivessem chegado à frente com a questão do FUNDO DE GREVE! Tiveram muitos professores de se organizar nesse sentido. Em muitas escolas criaram um fundo para pagar a meias a greve do colega na reunião de avaliação! Mesmo assim foi a questão do dinheiro que pesou muito hoje para alguns professores! Há uma outra greve marcada para 27 de Junho. Poucos são os que suportam pagar as duas.

Já estive nessa situação há muitos anos e foi por essa mesma razão que saí do sindicato.
Ou fazia greve ou tinha dinheiro para pagar o infantário do meu filho. Pus a questão à direção do sindicato, através dos representantes na escola. A resposta que recebi sobre a criação de um fundo de greve? "Não há tradição de fundos de greve no sindicalismo português".
Podem não acreditar, mas foi essa a resposta que obtive.
E a resposta à minha carta de demissão, que pedi expressamente, ainda estou à espera, passados mais ou menos 19 anos.

Quando se lutou por causa da Avaliação de Desempenho fomos mal tratados por não termos capacidade de luta!
Na questão da criação dos Mega-Agrupamentos continuamos ( e vamos ser ainda mais) maltratados!
Na questão da Autonomia, tentam atirar-nos poeira para os olhos, com lindas palavras e introduções fabulosas nos decretos e despachos, mas no fim as balizas são tão apertadas, que não há autonomia para nada de importante!

Aos professores sindicalizados peço que levem esta questão do fundo de greve para os vossos sindicatos.
Para os não sindicalizados peço que reflictam, em conjunto com outros colegas, se é ou não uma questão determinante.
Aos múltiplos e variados sindicatos e sindicalistas peço o mesmo e peço que sejam honestos nos objectivos da vossa existência. É preciso unir a classe em torno das preocupações comuns  e consensuais: juntem-se e discutam todos os pontos em que estão de acordo. Vão ver que o que vos separa é o acessório e não o que realmente interessa.

Lembro que no ano passado todos nós trabalhamos 12 meses e recebemos 11!
Lembro que todos os que são efectivos e assinaram um contrato e foram nomeados com publicação em Diário da República, já não são efectivos: são todos mobilizáveis e dispensáveis.
Lembro a todos que diariamente estão a mudar as regras e que nós, os que sabemos bem o que se passa no terreno, nunca somos consultados.

15 junho, 2013

Liberdade


Nos dias que correm é a canção mais apropriada, já que nos querem expropriar até da própria Democracia!


29 maio, 2013

Dvořák: Symphony No. 9 "From the New World"


Dvořák: Symphony No. 9 "From the New World" 

Jansons · Berliner Philharmoniker

 Para aguçar o apetite, para a música claro, que o mundo novo já é velho!



27 maio, 2013

As crianças desaparecidas, algumas estão à vista!



26 maio, 2013

Every kid needs a Champion - Rita Pierson


Depois de ter postado no Facebook, volto a publicar aqui, que é um lugar de permanências mais longas.
Quem não percebe bem Inglês pode pôr legendas em Espanhol. Muito importante de se ouvir!



17 maio, 2013

5 Keys to Social and Emotional Learning Success




Gostava de saber Inglês sufuciente para traduzir e legendar este vídeo para Português, mas não sei!
Têm de o perceber o melhor que puderem.





Uma coisa sei: é um trabalho que tem de ser feito!

22 abril, 2013

Adela Cortina

No Público de dia 20 de Abril, outra entrevista com mais uma filósofa, sobre o mundo actual. Importante ler para pensar e sabermos o que pensar da nossa realidade.

Acabar com o Estado social é levar a Europa ao suicídio

Do mesmo modo que os Estados Unidos construíram a sua coesão social com base num patriotismo forte, a União Europeia fez-se a partir de uma ideia de Estado social. Destruí-lo é reduzir o projecto europeu à irrelevância. Por Natália Faria
Catedrática de Ética e Filosofia Política na Universidade de Valência e membro da Real Academia de Ciencias Morais e Políticas de Espanha, a espanhola Adela Cortina é filósofa residente 2013 do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, onde deixou nos últimos três dias três lições sobre ética na vida pública. 

Uma das suas conferências era sobre democracia autêntica e neuropolítica. Qual é a relação?
A neuropolítica estuda os valores dos cidadãos quando vão votar. Quando os cidadãos votam, acreditava-se que o faziam para defender os seus interesses, mas não é verdade. A biologia demonstrou que temos no cérebro marcos de valores que definem em quem votamos. Esses marcos estão ligados à linguagem e despertam quando ouvimos determinadas palavras. Podem ser palavras como solidariedade, transparência, família. Aquilo a que se chama o neuromarketingeleitoral pôs-se então a estudar com que palavras se podem pôr em movimento esses valores. Sempre se procurou sondar o eleitorado para ver que discurso permitiria conseguir mais votos, a diferença é que isso se faz agora com base neurocientífica. Isto começou nos EUA, com alguns neurocientistas ligados ao Partido Democrata que se perguntavam por que ganhavam os republicanos habitualmente as eleições. E concluíram que os republicanos recorriam a uma linguagem que apelava mais aos valores dos norte-americanos. E então propuseram que os democratas recorressem a uma linguagem que se sintonizasse mais com os sentimentos dos norte-americanos. Não digo que [Barack] Obama tenha ganho por isto, mas a verdade é que ele foi mudando o seu discurso e tornando mais presente a questão da família, por exemplo.
A viragem da Europa à direita...
.... A direita ocupou-se mais dos valores que conectam mais rapidamente com o eleitorado, enquanto a esquerda apela a valores mais abstractos como transparência, verdade e justiça. Mas o que me interessa é a parte da neuropolítica que trata de ver se os nossos cérebros estão preparados para viver em sociedades democráticas. Se os nossos cérebros demonstrarem que somos radicalmente egoístas, é difícil conseguir uma democracia autêntica. Quando vemos como está a União Europeia (UE) somos levados a admitir que temos cérebros egoístas que impossibilitam uma verdadeira democracia. A resposta é que não é assim. Os nossos cérebros têm uma dimensão egoísta e uma dimensão altruísta.
Que vem da educação?
E da evolução. O nosso cérebro está conformado de tal maneira que podemos ser egoístas ou altruístas. É como naquela história em que o chefe índio estava a contar aos seus netos que em cada homem há dois lobos: um está a favor da concórdia e da paz, o outro do egoísmo e violência. E os dois estão a lutar entre si dentro de cada pessoa. Quando os netos perguntam que lobo ia ganhar, o avô responde: aquele que alimentarem. Se alimentamos sentimentos de solidariedade e de responsabilidade, podemos construir boas democracias.
Disse que esta crise é económico-financeira mas também ética e política. Porquê?
Porque esta crise surgiu da imoralidade pura e dura. Não se trata de, como dizem os economistas, estarmos a atravessar um mau ciclo, mas de mentira, fraude, corrupção e das suas consequências. Veja o subprime nos EUA. Alguém se deu conta de que aquilo não valia nada, e, em vez de o reconhecer, passou a vender as acções, garantindo que ninguém soubesse o que estava a vender. Isso é enganar. E há pessoas que são moralmente responsáveis por isso. A forma como actuam os bancos, como se incentivou as pessoas a contraírem hipotecas, tudo isso se deveu a seres humanos que não actuaram como deveriam. Essa é a dimensão ética da crise.
A crise podia ter sido evitada?
Claro que há coisas que não podíamos evitar, mas há outras que são da responsabilidade de pessoas com nomes e apelidos. A UE poderia ter reagido de outra maneira. O projecto da UE era unir-nos, não só no plano económico mas também no campo político e no da cidadania. E isso não se fez. E quando há um problema, em vez de o resolvermos todos juntos, vão-se afundando os países. Tudo isso tem responsáveis, pessoas que tomaram certas decisões e que podiam ter tomado outras.
A UE sobreviverá à crise?
Há que fazer todos os possíveis para que sobreviva. Uma Europa unida favoreceria todos os países que estão nessa união. Além disso, a Europa tem uma mensagem a dar ao mundo. A chamada economia social de mercado é uma experiência única. Somos os únicos com essa economia social, não selvagem; volátil, mas com saúde pública, educação pública.
Mas a crise está precisamente a fazer recuar o Estado social.
Claro. Mas isso é negar a essência da Europa. Acabar com o Estado social é levar a Europa ao suicídio. E se há país em que se defendeu a economia social foi na Alemanha. E é impossível que a Alemanha não saiba que hoje todos os países são interdependentes. Se não comprarmos carros alemães, os alemães não poderão vender os seus carros porque a Europa é o seu primeiro mercado. Somos interdependentes e temos economias sociais que nos favoreceram a todos. Económica e socialmente. A nível de trabalho, da segurança social. Sem isso a Europa não é nada.
Como entender então a destruição do Estado social?
Os dirigentes políticos não são inteligentes. Não é só o problema de não terem grandes projectos, mas o de não serem inteligentes. Como dizia Kant, até um povo de demónios, desde que inteligentes, sabe que lhe convém mais a cooperação do que o conflito, mais a vida mútua do que o ataque. Quando nos atacamos uns aos outros, como está a acontecer na Europa, cria-se pobreza material e ressentimento. As pessoas sentem-se humilhadas e doridas e isso é mau para todos, também para os que estão melhor. Gostaria de poder lembrar os agentes políticos e económicos que a cooperação é muito mais inteligente do que o conflito. É uma questão de inteligência, nem sequer é uma questão de bondade. Estes estúpidos estão a procurar inimigos e adversários.
É a Europa a trair a sua própria identidade?
Justamente. O projecto europeu tem muitas vantagens e a mais importante é a sua capacidade de criar coesão social. Assim como os norte-americanos criaram unidade social baseada num patriotismo forte, na Europa criámos coesão social através dos direitos económicos, sociais, culturais. Essa é a essência da Europa. E por isso muitos diziam que este projecto Europeu era superior ao norte-americano ou ao chinês. Ao fazer isto, a Europa está a ir contra si própria e a condenar-se à miséria e à irrelevância.
O projecto europeu deve dar um passo em frente sob risco de desaparecer?
Uma das coisas que nos perdem é que não há povo europeu. Para falar de democracia, que é o governo de um povo, faz falta um povo e não há povo europeu. Há espanhóis, portugueses, alemães... Quando votamos para o Parlamento Europeu não estamos a pensar no bem da Europa, mas nas vantagens para Portugal, para Espanha... Neste momento, cada país vê a Europa cada vez mais longínqua e, inclusive, como uma inimiga. É fundamental criar cidadania europeia. Legalmente, politicamente e moralmente.
Ainda há tempo?
A alternativa seria renunciar ao projecto, o que me pareceria criminoso, porque uma união favorece todos os países europeus. A Europa oferece algo muito importante que é o Estado social, mas, além disso, nenhum dos seus países tem qualquer hipótese face a uma China ou uma Índia. Nada. Uns quantos milhões de habitantes em cada país que não vão a nenhum sítio. Sozinho, nenhum país europeu conta. Se estivermos unidos, somos uma voz.
Como vê os movimentos de cidadãos que lideraram os protestos em vários países?
Foram uma reacção necessária. Porque a situação era verdadeiramente injusta e era estranho que ninguém dissesse nada. O que acontece é que estes movimentos não estão estruturados, protestam e depois desvanecem-se. O que eles têm que fazer agora é canalizar-se. Em Espanha, algumas associações de cidadãos deram esse passo e estão a apresentar reivindicações muito concretas. Há uma associação que exige mudanças nos partidos. Apresentou uma proposta em que diz que os partidos são cruciais para a democracia mas funcionam mal. E apresenta dez mudanças, concretas e trabalhadas, para os partidos políticos. Estão a recolher 500 mil assinaturas para levar o tema ao Parlamento. E ao político que quer ganhar votos tem que interessar o que dizem 500 mil pessoas. Creio que este é o grande momento da cidadania activa.
Numa Europa envelhecida, é sustentável o modo como nos organizamos: nascer, estudar, trabalhar e depois a reforma, numa idade distante da meta estabelecida pela esperança média de vida?
Creio que sim. Existem, como dizia [François] Mitterrand, muitas jazidas de emprego que não foram exploradas. Desde que, claro, em vez de seguirmos por este caminho da economia financeira, entremos no caminho da economia produtiva - a crise tem muito que ver a financeirização da economia que criou uma situação de descontrolo que faz com que haja tão poucos postos de trabalho, com que os bancos não emprestem e as empresas não criem emprego. O caminho tem que ser priorizar a economia produtiva. E há muitos movimentos que estão a tentar mudar o modelo. Um deles apresenta o modelo da economia do bem comum, proposto há muito tempo por um economista austríaco, e que o que faz é potenciar a economia produtiva de riqueza, de serviços e de bens. Se a economia financeira se reduzir face à economia real e produtiva, esse modelo em que uma pessoa nasce, educa-se e tem um trabalho e depois uma reforma pode manter-se. É o mais razoável.
Mesmo se a morte das sociedades de pleno emprego já foi tantas vezes decretada?
A sociedade de emprego pleno tem que voltar. E tem que voltar porque o emprego não é unicamente um meio de vida mas um modo de identificação e de participação na vida social. E é também uma fonte de auto-estima. Não ter trabalho é um drama pessoal e não só por uma questão financeira.
Ao fim das sociedades de pleno emprego soma-se uma outra ideia que defende que o rendimento dos cidadãos terá que ser desligado do trabalho.
Um dos projectos que deveria ser posto em marcha é o do rendimento de cidadania que consiste em atribuir um rendimento básico a todos os cidadãos. Quem quisesse trabalhar poderia fazê-lo, mas se alguns preferissem viver desse mínimo necessário para viver com dignidade... Isto tem suscitado muitíssimas discussões.
A discussão já chegou aos partidos?
Alguns partidos políticos já o têm no programa eleitoral. Em Espanha, por exemplo. A ideia é que, se uma comunidade política se preocupa com os seus cidadãos, então tem que se preocupar com a sua sobrevivência e isso passa por assegurar a todos um rendimento básico que lhes permita sobreviver. O objectivo é conseguir que o dinheiro não se ganhe pelo trabalho mas por ser cidadão. E então que seria o trabalho? Uma forma de participação social.
E como se produziria riqueza?
Muitos dos defensores deste modelo são economistas. E nalguns países já está demonstrado que o modelo é viável. Em Espanha e na Bélgica, os cálculos mostram que seria viável, porque, além do mais, não há tanta gente que quisesse viver sem fazer nada. A maioria quer ter um ofício, participar. A diferença é que a sobrevivência não dependeria disso.
Seria libertar o ser humano da luta pela subsistência?
Uma forma de garantir liberdade real para todos. Se toda a gente tivesse um rendimento assegurado, seria mais fácil que todos trabalhassem em algo de que gostam. Aí, alguns trabalhos teriam que ser mais bem pagos. Ser mineiro, por exemplo, é ganhar pouquíssimo e arriscar muitíssimo. Com uma renda básica, haveria que pagar mais aos mineiros para que estes trabalhassem. Creio que há que mobilizar as pessoas para isto.
Soa utópico numa altura em que milhões estão reduzidos à luta pela subsistência.
Não é uma utopia para países ricos. Os cálculos, que levam em conta os que trabalham e os que não trabalham e usufruem de algum tipo de ajuda, demonstram que isto não é caro. São coisas que se podem articular se houver vontade. Vivemos uma situação crítica de empobrecimento maciço, mas é precisamente nestes momentos que temos que criar alternativas.

 

21 abril, 2013

Anselm Jappe


Hoje no Público, uma entrevista importante, para pensar.

O que faremos se o sistema já não conseguir criar trabalho?

No capitalismo, é a relação com o trabalho que nos define, diz o filósofo Anselm Jappe, em Lisboa a convite do Teatro Maria Matos. Mas o sistema é um "castelo de cartas que começa a perder peças". E é tempo de repensar o conceito de trabalho
O capitalismo distorceu a ideia de trabalho, desligando-a das necessidades reais da sociedade. Trabalhamos a um ritmo cada vez mais acelerado apenas para alimentar a lógica do sistema. Mas este parece ter entrado numa rota de autodestruição porque, com a exclusão de cada vez mais gente do mercado de trabalho, há também cada vez mais gente excluída do consumo, afirma o filósofo Anselm Jappe, nascido em 1962 na Alemanha e que hoje vive entre França e Itália.
Jappe - que tem três livros editados em Portugal pela Antígona, entre os quais As Aventuras da Mercadoria (2006) - faz uma conferência, na próxima terça-feira, dia 23, no Teatro Maria Matos, no âmbito do ciclo Transição. Na conferência (em português), com curadoria de António Guerreiro, Jappe vai explicar por que devemos repensar o conceito de trabalho.

A sua conferência chama-se Depois do Fim do Trabalho: A caminho de uma humanidade supérflua? O fim do trabalho está no nosso horizonte?
Essa afirmação teria espantado muita gente há algumas décadas, porque a sociedade moderna é por definição uma sociedade do trabalho, onde se coloca sempre mais gente a trabalhar. Mas o trabalho, nesta lógica, não é uma coisa que tenha existido sempre.
Existe desde quando?
Na Antiguidade, não existia uma palavra "trabalho" que incluísse todas as actividades. Seria impossível imaginar, por exemplo, que a actividade de um padre, de um camponês, ou de um escravo fossem consideradas trabalho. Cada actividade servia para realizar um fim. O que contava era esse fim - ter coisas para comer, realizar um serviço de Deus, fazer uma campanha militar, etc. O que contava era a satisfação de uma necessidade e o trabalho era o meio para isso.
Com a sociedade industrial, é o contrário, trabalhamos o mais possível porque é o trabalho que nós dá o dinheiro, e toda a satisfação das necessidades vem depois. É preciso trabalhar sempre mais para aumentar a produção. Um trabalho é um gasto de energia que se mede em tempo. Se eu faço uma mesa ou dou uma aula na universidade, são duas coisas completamente diferentes, mas posso sempre dizer "trabalhei uma hora". Esse tempo exprime-se numa quantidade de dinheiro.
Que é valorizada de forma diferente se for o trabalho de um professor universitário ou de um operário.
Uma hora de um trabalhador especializado pode valer mais do que uma de um não-especializado. É uma diferença quantitativa, mas não tem nada a ver com o conteúdo da produção.
Temos uma sociedade industrial que se baseia no uso de máquinas e de tecnologia, que servem para economizar trabalho. Seria lógico que precisássemos de trabalhar menos porque teríamos todas as nossas necessidades preenchidas com um mínimo de actividade. É exactamente o contrário que acontece. Trabalhamos hoje muito mais do que antes. Basta fazer uma comparação entre o nosso ritmo de vida e o dos nossos avós.
Hoje tudo gira em torno do trabalho. Podemos ser trabalhadores ou desempregados, mas somos sempre definidos pela nossa relação com o trabalho.
No sistema capitalista, o valor não é dado pela utilidade das coisas, mas pelo trabalho que foi necessário para as fazer. Quanto mais trabalhamos para fazer uma coisa, mais isso acrescenta valor ao produto. O lucro do capitalista provém de trabalharmos mais do que o necessário, aquilo a que Marx chama mais-valia.
Por outro lado, o capitalismo fez do trabalho o carburante da vida social. Nas sociedades anteriores, essa vida social baseava-se em questões como a dominação directa do solo, as ideias de honra ou as ideias religiosas. Na sociedade moderna somos todos definidos pelo trabalho.
Mas nas últimas décadas o trabalho começou a esgotar-se. Há cada vez menos trabalho por causa da evolução tecnológica. Podia ser uma boa notícia - vamos trabalhar menos e ter tudo o necessário. Mas é o contrário que acontece. As pessoas vão para o desemprego, não há uma verdadeira redistribuição da actividade, e os que estão no desemprego são também afastados do consumo.
O que contraria a lógica do sistema.
Sim, os que já não podem trabalhar já não têm dinheiro para consumir. É uma espécie de auto-abolição do capitalismo. Numa fábrica faz-se uma camisa em cinco minutos quando anteriormente um artesão precisava de uma hora. Isto significa que há menos trabalho investido na camisa. Numa sociedade racional diríamos "vamos fazer a mesma camisa que anteriormente, mas trabalhando apenas cinco minutos". Mas é o contrário que acontece: obriga-se o operário a trabalhar mais, a fazer mais camisas, e depois é preciso vendê-las. Se se produz cada vez mais, é para contrariar o facto de que em cada mercadoria é investido menos trabalho e portanto a mais-valia é mais reduzida.
Mas nem sempre a substituição dos humanos por máquinas retira valor ao produto final. Se eu for tomar um café, ele pode ser-me servido por uma pessoa ou ser retirado de uma máquina e mesmo assim eu pagar o mesmo por ele.
É aí que está a contradição - se uma empresa substituir um trabalhador por uma máquina, ela vai ganhar mais porque a máquina tem um custo menor. As pessoas pagam o café como antes, mas a empresa gasta menos em salários. Mas se todas as empresas fizerem o mesmo, é o próprio sistema que perde porque há menos utilização da força de trabalho. As empresas são contra o interesse do sistema. Foi assim desde o princípio.
E, no entanto, as máquinas deixar-nos-iam mais tempo livre para nos dedicar-se a outras actividades, eventualmente com maior utilidade.
Isso seria a situação ideal. Mas no sistema capitalista nem todas as actividades são valorizadas, apenas as que podem reproduzir o capital investido. O que fazemos para nós ou para os nossos amigos não é considerado trabalho porque não entra na lógica do mercado. A actividade útil para nós ou para os outros é muito diferente do que é considerado trabalho no sistema capitalista. Podemos dizer de um casal que ele trabalha numa fábrica, é trabalho, a mulher não trabalha, ocupa-se dos filhos e do sogro que está doente. A definição do trabalho não tem nada a ver com o conteúdo da actividade.
As actividades produtivas estão necessariamente ligadas à produção de mercadorias?
Não, mas têm que entrar num ciclo em que o capital se reproduz. Vejamos uma fábrica: o operário faz um carro, o carro é vendido no mercado e isso representa um lucro para o capitalista, e portanto é um trabalho produtivo. É preciso também limpar a fábrica, mas os que o fazem não dão nenhum lucro, é apenas uma despesa necessária, que não contribui em nada para o lucro, pelo contrário.
Tendemos a ver o capitalismo como um sistema alimentado por alguns e imposto a outros. Mas não é assim que o vê.
O capitalismo tem uma lógica anónima, impessoal. Os capitalistas executam apenas as leis de um sistema que os ultrapassa. Existe, claro, responsabilidade individual, mas isso conta menos do que a lógica de todo o sistema. Hoje há de novo uma forte tendência de pensar que o problema é que há um grupo de pessoas que são demasiado ávidas, os especuladores, banqueiros, etc., que exageram e põem em risco todo o sistema baseado em trabalhadores honestos.
Há uma tendência para a personalização, que se encontra também muito em movimentos como os Indignados ou o
Occupy Wall Street. Isto pode ser perigoso porque é um pouco o que aconteceu nos anos 30 com o sistema fascista, em que a cólera social se voltou contra um grupo de pessoas, nesse caso, contra a finança judaica.
O verdadeiro problema é que não há uma distribuição das actividades em função das necessidades sociais, como faria uma sociedade razoável, mas há simplesmente esta necessidade de trabalhar seja no que for para produzir coisas que não sabemos para que servem. Isso é algo que mesmo a esquerda desvalorizara, porque se preocupou sempre muito com a questão da justiça social, por perceber por que é que uns ganhavam mais do que outros.
Se as pessoas tendem a personalizar, é porque é muito difícil lutar contra um sistema sem rosto.
É mais fácil ir para a rua protestar contra os banqueiros. Mas é fácil dizer que nós somos apenas as vítimas, quando a verdade é que todos fazemos parte deste sistema, desta lógica.
Parece difícil estar fora do sistema.
Sim, participamos todos, por exemplo, na lógica da concorrência, é algo que nos invadiu completamente. Estamos sempre a tentar vender-nos, ser mais fortes do que os outros, ter sucesso no mercado. Absorvemos completamente a lógica capitalista, que não é natural, porque, no passado, a concorrência tinha um papel muito menor na vida quotidiana.
Mas não considera positiva a ideia de que muita coisa depende das nossas capacidades, e que não estamos condenados a um lugar determinado, como num sistema de castas?
A modernidade apresentou-se como uma espécie de libertação em relação ao sistema feudal, mas é uma liberdade aparente, porque é uma lógica destruidora que leva as pessoas a fazerem tudo o que podem fazer, e a considerar o mundo como uma espécie de material onde se podem realizar as próprias aspirações. É verdade que o modernismo tem um dinamismo que faltava às sociedades anteriores, mas a pouco e pouco este dinamismo tornou-se uma espécie de individualismo que tomou conta das pessoas nos países ocidentais.
Olhamos para nós próprios como empreendedores, como alguém que está sempre em busca de oportunidades. É preciso fazer desporto para estar em boa forma para trabalhar, ou frequentar meios em que se conheçam pessoas que possam ajudar-nos a ter outro trabalho interessante.
Mas, pelo menos teoricamente, as coisas dependem mais da nossa vontade individual.
A ideologia oficial diz que cada um pode fazer da sua vida o que quer, que não somos marcados pelo facto de termos nascido na Suécia ou em África, mas na realidade não é assim. Não é como no Monopólio, em que todos começam com a mesma quantia. Não há uma igualdade de oportunidades.
Mas mesmo que ela existisse, era preciso perguntarmo-nos o que queríamos fazer. Uma sociedade razoável organizaria um acordo colectivo sobre o que é necessário fazer para vivermos bem, e depois pensaria como o optimizar com o mínimo de esforço possível, com cada um a contribuir com a sua parte para a vida colectiva e durante o resto do tempo a dedicar-se a fazer o que quisesse.
Existe um espaço fora do sistema?
É evidente que sofremos cada vez mais com esta situação. As pessoas que trabalham sofrem, fala-se cada vez mais de suicídios ligados ao trabalho, há uma pressão enorme nas grandes empresas, sabe-se que se vai despedir no próximo ano metade das pessoas, e então todos trabalham como loucos para agradar a este deus que é a lógica da rentabilidade. E os que não trabalham sofrem porque são socialmente desvalorizados.
Existe actualmente uma série de iniciativas ligadas ao decrescimento, economias alternativas, grupos de trocas locais, ou de regresso ao campo, trocas entre produtores biológicos. Tenho muito a criticar-lhes, mas penso que, pelo menos, demonstram um interesse real de encontrar um caminho que não seja apenas uma gestão alternativa da mesma sociedade industrial baseada no dinheiro.
Durante muito tempo a esquerda limitou-se a propor uma distribuição mais justa desses conteúdos. Hoje existe pelo menos a tentativa de procurar ir para além disso. Mas há sempre outras forças sociais que, pelo contrário, continuam a querer apanhar o último pedaço deste bolo que é cada vez mais pequeno.
O capitalismo está moribundo?
Muitas vezes o ser humano não é rentável do ponto de vista do sistema, e isso significa que vai também deixar de poder consumir. Na Europa distribui-se ainda algum dinheiro pelos que já não são rentáveis, mas também aí há uma pressão enorme para cortar, cortar. Há esta sensação de que existem pessoas que são supérfluas do ponto de vista do sistema. Para a Alemanha, a Grécia tornou-se um país supérfluo. E dentro dos países há camadas da população às quais já não se sabe o que fazer.
Os Governos falam num regresso ao crescimento, todos querem exportar para os novos mercados emergentes.
Todos querem exportar, ninguém quer importar. Mas não é possível um mundo em que todos exportem e ninguém importe. Aquilo a que chamamos o milagre económico chinês baseia-se também nas exportações, sobretudo para os EUA. Se os países pequenos entram na lógica liberal das exportações, é terrível. Há países que em África produziam o suficiente para se alimentarem - viviam modestamente, mas com o suficiente - e quebraram tudo em nome das exportações, hoje só produzem bananas e se de repente o mercado das bananas cair é toda a economia que cai.
É preciso libertarmo-nos desta ideia de produzir em primeiro lugar para um mercado mundial.
A globalização aproximou-nos de outras culturas. Se nos fechamos nas aldeias...
A mobilidade global é bastante unilateral. Nunca tivemos na Europa fronteiras tão guardadas em relação a tudo o que é exterior. Há uma mobilidade para os turistas, e uma mobilidade para os que têm que ir procurar trabalho.
A alternativa não seria nem um regresso aos Estados-nações - isso parece-me uma ideologia bastante perigosa. Uma sociedade pós-capitalista deve ter uma base quotidiana nas realidades locais, comermos maçãs que cresceram no pomar do vizinho e não na Nova Zelândia. Isso, claro, não impede uma comunicação cultural e intelectual com pessoas que vivem noutros locais. Há pessoas que optam por trabalhar menos e reduzir as suas necessidades materiais, organizando-se com outras para terem uma vida satisfatória que não passa necessariamente pela compra de produtos ou serviços.
Mas disse que é crítico também desses movimentos. Porquê?
Porque pensam que é suficiente limitarem-se a essas medidas. Comprar os nossos produtos no produtor biológico pode ser um primeiro passo.
Qual seria o segundo?
Um movimento social que ocupasse directamente os ateliers, as fábricas. O capitalismo abandona muitas capacidades produtoras, porque já não são rentáveis, mas estas poderiam ainda funcionar bem.
Está a falar de ocupações, de gestão comunitária, faz lembrar o 25 de Abril.
Há uma memória histórica que vale a pena recuperar. Evidentemente que não vamos começar do zero.
Mas o sistema integrou rapidamente essas experiências.
Não quer dizer que as coisas se passem da mesma maneira, porque hoje em dia o sistema está muito mais enfraquecido. Hoje vivemos um momento inverso ao dos anos 70 e 80. O sistema está em recuo. Os que pertencem ao ciclo produção-consumo são cada vez menos, mesmo nos países mais ricos. Há um número cada vez maior de pessoas que não encontram lugar dentro do sistema. Se uma fábrica foi abandonada porque foi deslocalizada, seria possível tomá-la e fazer nela alguma coisa de útil.
Uma mudança depende de uma espécie de contrário social prévio. É necessário um número elevado de pessoas.
Vejo aí outro risco - isso pode facilmente tornar-se uma espécie de gestão da pobreza. A pobreza está a aumentar e o Estado poderia muito bem dar uma parcela da gestão social a este género de economia alternativa, dizendo: "Desenrasquem-se".
É ridículo, por exemplo, ver as pessoas que recuperam no final do mercado os legumes que foram deitados fora. Isso torna-se uma valorização da sobrevivência no dia-a-dia que é absurda se se continua ao nível social global a desperdiçar imenso. A ideia da simplicidade voluntária pode abrir um discurso de valorização da pobreza.
Para criar um sistema pós-capitalista usamos modelos anteriores ou é preciso inventar tudo?
O capitalismo cumpriu tão pouco as suas promessas que encontramos hoje em alguns meios uma espécie de nostalgia de regresso ao passado. Mas é certo que não vamos voltar atrás, o risco aí é o de arcaísmos violentos. É claro que a solução só pode estar à nossa frente. Podemos ter uma vida satisfatória com uma produção muito reduzida em relação ao que temos hoje.
Vê o futuro ideal como um mundo em que as pessoas trabalham menos, o trabalho é mais bem distribuído...
... em que se definem as necessidades, aquilo que queremos fazer na vida e como o podemos realizar com o menor esforço possível. É preciso começar a pensar a partir dos resultados e não do trabalho. Muitas das necessidades de hoje são compensações pelo trabalho. Uma vida dedicada apenas ao trabalho é tão pouco satisfatória que é preciso depois ter compensações, televisão, carros, viagens, jogos de computador.
Até que ponto é que essa mudança passa pela política?
Quando pensamos em política, pensamos na ideia de que o Estado deve garantir uma melhor distribuição das coisas. Mas vemos que a política não é solução, porque depende estruturalmente do dinheiro. Como há menos dinheiro à disposição do Estado para ser distribuído, o Estado tem cada vez menos poder. A esquerda, os alter-mundialistas, evocam sempre um papel mais forte do Estado. Como se o capital fosse o pólo negativo e o Estado o positivo. Mas se o Estado já não pode cobrar impostos, já não tem nada para redistribuir.
Sem Estado, como é que garantimos a protecção aos mais desfavorecidos? Não há um risco de que a lógica local seja a da caridade da aldeia?
O Estado social ainda é muito jovem e começa já a ser desmantelado um pouco por todo o lado. Existem muitos Estados onde não há praticamente ajudas públicas. Enganamo-nos se pensamos que as preocupações sociais são o coração do Estado.
Que organização social defende?
A auto-organização baseada nos bairros das cidades, unidades pequenas que decidem da sua própria vida, e depois se organizam a um nível federal com outras. Neste momento, o capitalismo é um castelo de cartas que começa a perder as peças. Não é possível dizer quanto tempo demorará a cair, mas os sinais são cada vez mais evidentes.


 

01 abril, 2013

A escola integra ou exclui?




Que faz a nossa escola?
Que podem as pessoas que trabalham nas escolas fazer?
Será que todos têm consciência da importância social do seu trabalho?

01 fevereiro, 2013


Bach, claro! Um vídeo que ajuda a seguir as várias vozes: para quem sabe música e para quem não sabe.
No fim a música "sabe" melhor e mais intensamente.



31 janeiro, 2013

31 de Janeiro - Revolta no Porto - 1891



Diz assim, nesta página da Wikipédia : "As figuras cimeiras da "Revolta do Porto", que sendo um movimento de descontentes grassando sobretudo entre sargentos e praças careceu do apoio de qualquer oficial de alta patente, foram o capitão António Amaral Leitão, o alferes Rodolfo Malheiro, o tenente Coelho, além dos civis, o dr. Alves da Veiga, o actor Miguel Verdial e Santos Cardoso, além de vultos eminentes da cultura como João Chagas, Aurélio da Paz dos Reis, Sampaio Bruno, Basílio Teles, entre outros."

Não me vou pôr agora aqui a cantar, mas «A Portuguesa, que hoje é um dos símbolos nacionais de Portugal (o seu hino nacional), nasceu como uma canção de cariz patriótico em resposta ao ultimato britânico para que as tropas portuguesas abandonassem as suas posições em África, no denominado "Mapa cor-de-rosa".» Nesta página há mais informação.


Estando a informação tão acessível, nos dias que correm, é pena que os portugueses não se lembrem de alguns acontecimentos da sua história. O tal mapa cor-de-rosa está na base das duas coisas.

06 janeiro, 2013

Política






 " Embora seja um erro desprezar aqueles que exercem bem a sua profissão, não deixa de ser verdade que, em política, tendo em conta o seu objectivo, a mediocridade é mais prejudicial do que noutra carreira qualquer." Julien Freund, em " O que é a Política", Edição Portuguesa, Editorial Futura, 1974

24 dezembro, 2012

The Muppets - Bohemian Rhapsody

Bom Natal, para os músicos e os não músicos, os amigos e só os conhecidos.
Vale a pena ver o vídeo até ao fim.



22 dezembro, 2012

Bach, Brandenburg Concerto No 4, 3rd mvt., presto


Uma versão que pode não agradar a toda a gente, mas o vídeo permite VER a complexidade da música de Bach. Possibilita também, para quem não está habituado a ouvir, seguir a música pelas cores e pelos movimentos, sem se perder!



20 dezembro, 2012

Fauré plays Fauré Pavane, op 50


Fauré tocado por Fauré!
Já pensaram que se fosse Bach, Mozart ou Beethoven, a gravação não tinha preço?
É uma sorte poder ouvir isto!






No site International Music Score Library Project 
há muita mais informação.

15 dezembro, 2012

J. S. Bach - Cantata BWV 61 - Nun komm, der Heiden Heiland - Ouverture



Pensar que Bach compôs mais de 200 cantatas!
Acho que ele ía gostar desta interpretação.



First movement (ouverture) from cantata BWV 61 "Nun komm, der Heiden Heiland" (Now come, the gentiles' Savior) for the First Sunday in Advent, performed by the J. S. Bach Foundation of St Gallen under Rudolf Lutz. Further information on the Bach Foundation at www.bachstiftung.ch. The DVD with the complete cantata, introductory workshop and reflection lecture (in German) is available at: http://www.bachstiftung.ch/en/shop/items/j-s-bach-kantate-bwv-61/ You can also find the Foundation on iTunes.

12 dezembro, 2012

Mahler: "Ich atmet' einen linden Duft" / Kožená · Rattle · Berliner Philharmoniker









Full-length concert at http://www.digitalconcerthall.com/concert/2510

Gustav Mahler: "Ich atmet' einen linden Duft" from Rückert-Lieder / Magdalena Kožená mezzo-soprano · Sir Simon Rattle, conductor · Berliner Philharmoniker / Recorded at the Berlin Philharmonie, 27 January 2012


10 dezembro, 2012

Bach: Fuga in g "Little", BWV 578


Robert Köbler (1965)
Silbemann organ of the village church of Grosshartmannsdorf (1741)


13 novembro, 2012

Slimmy - You Should Never Leave Me





Uma versão, no programa Brand New, da MTV em 2008.
Com o meu irmão Quico no piano.
Vale a pena ouvir até ao fim.

08 setembro, 2012

Doze Benefícios da Educação Musical


Devido à redução (mais uma), da carga horária da Educação Musical  no currículo nacional, torna-se imperativo, a meu ver, a necessidade de explicação a um maior número de cidadãos, do que essa medida política não educativa quer dizer.


"1 - Um treino musical precoce ajuda a desenvolver áreas do cérebro implicadas na linguagem e no raciocínio. Pensa-se que o desenvolvimento cerebral continua por muitos anos após  o nascimento. Estudos recentes  indicam claramente que o treino musical desenvolve fisicamente a parte do lado esquerdo do cérebro que se sabe estar implicado no processamento da linguagem, e que pode na realidade dispor os circuitos cerebrais em caminhos específicos. Ligar canções familiares a informação nova também pode ajudar a gravá-la nas mentes jovens.

2 - Há também uma ligação causal entre a música e a inteligência espacial ( a capacidade de se aperceber com precisão do mundo real e formar das coisas imagens mentais.)
Este ramo da inteligência, que permite visualizar vários elementos que se devem apresentar em conjunto, é indispensável para o tipo de pensamento necessário para tudo, desde a
resolução de problemas de matemática avançada até à hablidade de arrumar a  pasta dos livros com tudo o que vier a ser necessário para o seu dia.

3 - Os estudantes de artes aprendem a pensar criativamente e a resolver problemas imaginando várias soluções, rejeitando regras antiquadas e suposições. As perguntas àcerca das artes não têm somente uma resposta certa.

4 - Estudos recentes mostram que estudantes que estudam artes são os que têm mais sucesso em testes padronizados, tais como os SAT [ or the Reasoning Test (formerly Scholastic Aptitude Test and Scholastic Assessment Test) is a college admissions test in the United States.]. Também conseguem melhores notas no ensino secundário.

5 - O estudo das artes fornece às crianças uma visão interna de outras culturas e ensina-as a ter empatia pelos povos dessas culturas. O desenvolvimento dessa simpatia e empatia, por oposição ao desenvolvimento da ambição e da atitude " primeiro eu", providencia uma ponte através das divergências culturais que levam, precocemente, ao respeito das outras raças.

6 - Os estudantes de música aprendem a ser artifíces ao estudarem como os detalhes são meticulosamente estruturados e o que é o bom trabalho por oposição ao medíocre. Estes padrões quando aplicados ao próprio trabalho dos alunos, exigem um novo nível de excelência e obrigam os alunos a libertar as suas capacidades escondidas.

7 - Em música, um erro é um erro; o instrumento está afinado ou não, as notas são bem tocadas ou não, a entrada é feita ou não. Só com muito trabalho é possível obter uma actuação com sucesso. Através do estudo da música, os estudantes aprendem o valor do esforço contínuo para se obter a excelência e a recompensa concreta do trabalho árduo.

8 - O estudo  da música intensifica as competências do trabalho em equipa e da discplina. Para que uma orquestra soe bem é necessário que todos os músicos trabalhem harmoniosamente em conjunto para se obter um único objectivo, a actuação, e que se comprometam a aprender a música, ir aos ensaios e praticar.

9 - A música providencia as crianças com meios para se auto-exprimirem. Agora que existe uma segurança relativa na existência básica, o desafio é dar sentido à vida e e alcançar um grau mais alto de desenvolvimento. Todos necessitam, num dado momento da sua vida, de estar em contacto com a sua essência, com o que se é e com o que se sente. A auto-estima é um resultado dessa auto-expressão.

10- O estudo da música desenvolve competências necessárias num local de trabalho. Foca-se no "fazer" por oposição à observação e ensina aos estudantes como actuar, literalmente, em qualquer parte do mundo. Os empregadores procuram pessoal multi-dimensional com a espécie de intelecto elástico e flexível que, como dito acima, uma educação musical ajuda a criar. Na sala de aulas de música os estudantes também aprendem a comunicar e colaborar melhor uns com os outros.

11- A execução musical ensina aos jovens a ultrapassar o medo e a arriscar. Um pouco de ansiedade é bom e aparecerá de vez em quando na vida. Aprender a lidar com ela frequentemente desde novos ajuda a torná-la um problema menor mais tarde. O arriscar é essencial para o completo desenvolvimento de uma criança. A música contribui para a saúde mental da criança e pode ajudar a prevenir comportamentos de risco tais como o abuso de drogas do adolescente.

12- Uma educação artística expõe as crianças ao incomparável."


Carolyn Phillips é autora de Twelve Benefits of Music Education.
Foi Directora Executiva da Norwalk Youth Symphony, CT





Tradução de Eduarda Viana

 

30 agosto, 2012

Atenção ao desacordo do dito AO!

Muito importante esta contribuição. Além de publicar aqui, do Público de 29 de Agosto de 2012, já imprimi, para afixar no meu local de trabalho e oferecer uma cópia a quem quiser.






"O Acordo Ortográfico (AO) não serve o fim a que se destina - a unificação ortográfica da língua portuguesa.

O prazo de transição terminará somente em 17 de Setembro de 2016.

1. Vícios formais e orgânicos.

O n.º 1 da Resolução do Conselho de Ministros (CM) n.º 8/2011 (que determinou a antecipação parcial do prazo de transição, mandando aplicar o Acordo Ortográfico à administração pública directa, indirecta e autónoma) é organicamente inconstitucional, por violação do artigo 165.º, n. 1, alínea b), da Constituição, pois regulamenta, a título principal, direitos, liberdades e garantias.

A mesma norma padece de inconstitucionalidade formal a duplo título: por violação da reserva de lei parlamentar (art. 165.º, n. 1, al. b)) e por carência da forma de decreto regulamentar, constitucionalmente exigida para os regulamentos independentes (art. 112.º, n. 6).

A Resolução n.º 8/2011 não poderia ser aplicada a órgãos exercendo outras funções jurídicas do Estado diversas da administrativa; havendo, pois, inconstitucionalidade orgânica e material, por usurpação de poderes, e também formal, da norma do n.º 2 da Resolução do CM; acarretando de inexistência jurídica.

2. O AO viola aspectos nevrálgicos da língua portuguesa, enquanto pertença ao património cultural.

As "facultatividades" representam a destruição do conceito de ortografia.

Existe a violação do dever estatal de defesa do património cultural (art. 78.º, n.º 2, al. c)) e do direito ao património cultural.

Há uma tentativa de usurpação do papel da lei positiva em relação ao costume e à tradição linguística existente do português europeu.

Detecta-se também inconstitucionalidade material, devido à violação da garantia institucional da neutralidade ideológica e consequente proibição do dirigismo estatal da cultura (art. 43.º, n.º 2), uma vez que o AO é puramente político, não sendo baseado na ciência linguística.

O AO consiste num autêntico plano totalitário de unificação aparente, expressando um fenómeno de "democracia totalitária" por parte do Estado "abafante" relativamente à sociedade civil.

3. Uma das consequências de a Constituição instrumental ser rígida é a impossibilidade de proceder a alterações através de textos com valor infraconstitucional (legislativos ou outros). Uma correcção ortográfica da Constituição, segundo o AO, é inadmissível sob o ponto de vista da hierarquia de fontes. As disposições da Constituição instrumental são intocáveis; só podendo ser alteradas licitamente mediante o exercício do poder de revisão constitucional.

O art. 2.º, n.º 2, da Resolução da AR n.º 35/2008, que determina que quaisquer reedições terão de ser feitas segundo o AO, é orgânica e materialmente inconstitucional, pois se refere, também, à Constituição instrumental.

3.1. Existe um dever de todos os particulares desobedecerem às normas mais aberrantes do AO, desfiguradoras do núcleo identitário das normas ortográficas costumeiras de língua portuguesa.

4. Restantes inconstitucionalidades materiais

4.1. Quanto a outras inconstitucionalidades materiais, temos, v. g., a violação da "autorização constitucional expressa"; restrições, não credenciadas pela Constituição, ao direito à língua e à liberdade de expressão; violação do princípio da identidade nacional, do princípio da igualdade, do direito ao desenvolvimento da personalidade, do dever de o Estado informar os cidadãos sobre os assuntos públicos (art. 48.º, n. 2); da regra da proibição de censura (art. 37.º, n. 2), da liberdade de criação artística e cultural (art. 42.º, n. 1), da proibição de dirigismo político na educação (art. 43.º, n. 2), da liberdade de aprender e de ensinar (art. 43.º, n. 1), das vertentes científica, pedagógica e administrativa da autonomia universitária (cfr. art. 76.º, n. 2); violação do direito ao ensino e à cultura, da liberdade de imprensa, do direito à informação do consumidor.

4.2. O Vocabulário de Língua Portuguesa e o conversor Lince, previstos pela Resolução do CM n.º 8/2011, padecem de inconstitucionalidade material, por violação do art. 112.º, n.º 5, 2.ª parte; de inconstitucionalidade orgânica, por regulamentar direitos liberdades e garantias (cfr. art. 165.º, n.º 1, al. b));

Registam-se várias ilegalidades sui generis do Lince e dos correctores ortográficos, por violação das próprias normas constantes do AO.

5. Consequências das inconstitucionalidades mencionadas.

A AR deve aprovar uma resolução que revogue a Resolução n.º 35/2008, autodesvinculando o Estado português.

Devido às inconstitucionalidades mencionadas e ao consequente desvalor da nulidade, existe o poder-dever de desaplicar as normas constantes do AO e da Resolução n.º 8/2011 do CM, por parte de todas as entidades públicas: legislador, tribunais, bem como órgãos e funcionários da administração pública.

Não existe dever de obediência por parte dos funcionários públicos, pois a ordem de respeitar o AO (ou o Lince) padece de inconstitucionalidade, por violação de direitos, liberdades e garantias, o que origina o desvalor da nulidade daquele acto. Deste modo, o não acatamento da ordem é insusceptível de acarretar responsabilidade disciplinar.

Os particulares gozam do direito de resistência (art. 21.º), do direito de objecção de consciência e do direito genérico de desobediência a normas inconstitucionais (e, em nosso entender, um dever de desobediência em relação às normas mais aberrantes do AO, que desfiguram a língua portuguesa)."

Por Ivo Miguel Barroso 
Assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

28 agosto, 2012

O exercício da cidadania numa democracia...


Não me sinto com direito a mudar o título da crónica - Só temos a múmia? -
de José Vítor Malheiros, publicada hoje no jornal  Público. Mas não me parece que o título chame a atenção dos leitores para aquilo que realmente é: umas boas perguntas, que nada têm de retóricas, depois de exemplificar com bastos exemplos, o que é exercer o direito de cidadania. Acho que não deixa ninguém indiferente!



"O exercício da cidadania numa democracia não se esgota na prática do voto durante as eleições - ainda que seja a isso que se limita a prática democrática da maioria dos cidadãos, para não falar do número, crescente, daqueles que se abstêm até desse gesto mínimo.

Espera-se de um cidadão responsável que, na medida das suas possibilidades e interesses, aja politicamente, que participe nos debates políticos onde estão em causa os princípios que moldam a vida pública e as normas da vida em sociedade, que tome posição, que defenda os seus pontos de vista e os seus interesses usando os meios à sua disposição, da discussão pública no café ou no Facebook ao uso dos meios de comunicação clássicos e de outros fóruns.

Espera-se de um cidadão responsável que interpele os poderes, que use os instrumentos legais para o fazer, da participação em reuniões públicas da sua autarquia ao lançamento de petições e abaixo-assinados, que promova iniciativas legislativas cidadãs e envie projectos de lei ao Parlamento. Que participe nas organizações profissionais e sindicais que lhe dizem respeito, que lute por condições que garantam maior equidade, justiça e bem-estar para si, para os seus camaradas de trabalho e para a sociedade em geral. Que se envolva na actividade partidária, que participe em movimentos de cidadãos, que se envolva em organizações de defesa dos direitos humanos, de defesa do ambiente, de promoção do património cultural, de solidariedade social, que faça trabalho voluntário para causas humanitárias. Que se envolva nas organizações que visam melhorar as condições de vida do seu bairro, da sua cidade, da sua escola ou do seu emprego. Que denuncie os crimes de que tem conhecimento ou suspeita, que não feche os olhos à corrupção.

Espera-se de um cidadão responsável que reclame e que se indigne, que proteste e que se manifeste no espaço público em defesa dos direitos de todos, que promova concentrações, que organize manifestações, que lance palavras de ordem, que mobilize os seus concidadãos para as causas que lhe são mais caras.

Espera-se de um cidadão responsável numa democracia que não se cale e não se acomode, porque é esta inquietação e este envolvimento, são estas palavras e estes gestos, são estes sentimentos de dever e de responsabilidade para connosco, para com os outros e para com os nossos filhos que constituem o sangue da democracia - e não os rituais cada vez mais desprovidos de sentido das eleições, que nada ou quase nada mudam, onde apenas se escolhem nomes de entre opções pré-seleccionadas por umas dezenas de apparatchiki desconhecidos e de idoneidade duvidosa, onde todos os compromissos são jurados mas nenhum é cumprido, onde nenhuma responsabilização individual é possível, onde as opções possíveis estão limitadas a um oligopólio de partidos e onde o poder, faça-se o que se fizer, nunca foge a um cartel que tem como credo o servilismo absoluto ao poder corrupto e nunca escrutinado da finança.

Estes cidadãos responsáveis e empenhados são essenciais à democracia porque uma democracia que só se anima durante um dia de quatro em quatro anos não é uma democracia, mas apenas a múmia seca de uma democracia. Só que estas acções, esta agitação democrática, só fazem sentido se ela estiver de facto entretecida com a democracia das organizações, dos partidos, da política, do poder, do Estado. Esta vida democrática só faz sentido e só a declaramos como vital porque pressupomos que, nas organizações da sociedade, nos poderes e no Estado, alguém a ouve e que ela alimenta a acção política. E a nossa natural bondade gosta de pensar que esse alguém que ouve o povo é um poder benigno ou pelo menos que tenta ser justo ou, no mínimo, prudente. Gostamos de pensar que entre esta sociedade civil (para usar a fórmula consagrada) e um Estado democrático existe diálogo e que todas as manifestações dos cidadãos são de facto ouvidas, levadas em conta, pesadas. E que, em caso de grande dissidência, existe sempre a Justiça para arbitrar os conflitos.

Mas... e quando isso não acontece? E quando do lado do poder temos governantes sem escrúpulos e que apenas conquistaram o poder mentindo? E quando se fazem surdos a tudo porque a única coisa que querem é construir uma sociedade de senhores e de escravos invocando a legitimidade do seu mandato para governar? E quando tudo o que pretendem é espoliar o Estado das suas riquezas para as entregarem aos donos dos negócios onde eles já asseguraram o seu emprego futuro? E quando os tribunais aceitam suspender a lei para se submeterem aos ditames deste Governo? E quando as regras do jogo limitam os cidadãos, mas os governantes podem fazer batota? E quando todos os dados estão viciados? E quando todas as formas de intervenção democrática que não sejam a múmia estão bloqueadas aos cidadãos?"

10 agosto, 2012

Banksters

Uma crónica de Domingos Ferreira, no Público de 3 de Agosto de 2012. Pode ter passado despercebida a alguém. Quanto melhor informados melhor. Boa leitura!



"Esperem... Estou a sonhar ou todas as semanas surgem novas notícias sobre novos escândalos no sistema financeiro? Não! Não é minha imaginação. Depois dos escândalos dos empréstimos dos subprime, das fraudulentas taxas de juros, das apostas de alto risco no mercado de derivados e da venda de produtos tóxicos aos clientes, pensar-se-ia que mais nada poderia acontecer. Mas não! A Peregrine Financial Group é um broker de commodities e situa-se em Cedar Falls, no Iowa, EUA. Esta empresa geria uma carteira de investimento de cerca de 200 mil milhões de dólares provenientes de depósitos dos seus clientes. Todavia, em resultado da tentativa de suicídio do endividadíssimo Russell Wasendorf, CEO da Peregrine, a fraude foi descoberta. Wasendorf deixou uma carta escrita descrevendo todo o esquema fraudulento. Verificou-se que dos 200 mil milhões de dólares dos depósitos restavam apenas cinco mil milhões de dólares.

Este é um caso em tudo semelhante a um outro, o da MF Global Holdings Ltd. Este broker operava no mercado de dívida pública europeia e entrou em colapso em Outubro último, em resultado também de um desfalque de 1,6 mil milhões de dólares. Mas há mais! Quem alguma vez adivinharia que o HSBC, prestigiado banco inglês, estaria envolvido na lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico, "diamantes de sangue", venda de armas e ligações ao terrorismo internacional? Em resultado deste escândalo, a Subcomissão Permanente de Investigações do Senado Americano promoveu uma investigação de que resultou um relatório de cerca de 330 páginas onde são acusados dezenas de banqueiros e executivos. Apesar de advertida, esta instituição continuou o business as usual.

Há mais, ainda: de acordo com o New York Times, o Goldman Sachs enriqueceu o seu longo e duvidoso curriculum. O escândalo rebentou quando divulgaram que este banco tinha efectuado investimentos numa start-up cujo core business é, imaginem, pornografia infantil. Isto para não falar no mais recente escândalo da venda de uma empresa americana de high-tech, a Dragon Systems Inc., à empresa belga. Neste negócio, o Goldman Sachs figurava não só como adviser, mas também como representante da empresa adquirente. Todavia, até ao momento os fundadores da Dragon Systems, Jim Baker e Daniel Baker, ainda não viram a cor do dinheiro, apesar de Lernout & Hauspie terem provado que efectuaram o depósito de pagamento no Goldman Sachs. A história ainda não acaba aqui. A Capital One, a gigante dos cartões de crédito, foi obrigada a reembolsar os seus clientes num total de 210 milhões de dólares. A Capital One efectuava débitos nos cartões de crédito dos seus clientes de compras de produtos (à própria Capital One) que estes nunca haviam autorizado. E, por fim, a cereja em cima do bolo: a Commodity Futures Trading Commission denunciou a mãe de todos os escândalos - a Liborgate. O gigante financeiro Barclays admitiu ter manipulado em proveito próprio, todavia, com forte prejuízo para todos nós, as taxas de juros que servem de referência a todos os depósitos e empréstimos, como cartões de crédito, juros do crédito à habitação e automóvel, créditos pessoais, etc. Calcula-se que apenas num dia a Libor sirva de referência a cerca de 800 biliões de dólares. Desta maneira, o Barclays ganhou "rios de dinheiro". Mas ninguém pense que este banco está sozinho. É cada vez mais claro que alguns dos maiores bancos e traders internacionais estão também envolvidos. Até mesmo Robert Diamond Jr., CEO do Barclays que perdeu o seu emprego após a denúncia do escândalo, afirmou: "Fiquei doente com o que li nos emails dos meus traders". De facto, o clube está corrupto e será caso para perguntar: onde pára a polícia? Isto é, as autoridades de regulação. Porém, estas não funcionam, pois, para além de terem visto os seus orçamentos drasticamente reduzidos pelo Congresso americano, inviabilizando, assim, a supervisão do sistema, estas estão infiltradas pelos próprios banksters. Os serviços financeiros são cruciais para o desenvolvimento económico, por isso, todos, famílias e empresas, necessitam de um sistema transparente e honesto. É uma perigosa fantasia pensar que Wall Street se pode auto-regular como afirma Mitt Romney."

04 agosto, 2012

A austeridade funciona?

Um texto do meu amigo Manuel Baptista.
Aceitam-se críticas.


A austeridade, que nos foi vendida como a receita amarga, mas inevitável, para saída da crise não funciona de todo. 
Muitas pessoas - e não apenas «radicais de esquerda» - tinham avisado desde o princípio que este tipo de tratamento era susceptível de matar o paciente. Mas os donos do verdadeiro poder, a grande finança portuguesa e internacional, não queria ouvir nada. Só aceitavam que os partidos e governos, submissos, aplicassem a receita neoliberal, com todos os pós de hipocrisia e de conversa fiada, em que os políticos são exímios. O bom povo lá foi votando neles, mais uma vez enganado, confiante de que eram «estas raposas que iam pôr ordem no galinheiro». 
Agora, temos o nosso país e todos os outros, que enveredaram pelo mesmo caminho na eurozona, metidos num colete de forças. As medidas de austeridade apenas anunciam mais do mesmo e não se vê qualquer luz ao fundo do túnel. Esta luz, que tantos procuram tão ansiosamente, apenas se poderá acender quando as pessoas estiverem por fim conscientes de que têm de tomar nas suas próprias mãos a resolução dos seus problemas. Isso implica varrerem os políticos e seus acólitos da média ao serviço do grande capital, dos economistas, que fazem o seu show quotidiano de submissão à mão que lhes dá de comer!
 
Há uma interpretação - silenciada na média corporativa - sobre este rumo da economia e finanças globais: é a de que este caminho agora trilhado tem servido propositadamente para o recuo dos trabalhadores e dos povos, sujeitando-os ainda mais à agenda neoliberal, ao poderio sem limites da finança mundial. Pois assim - conforme aos desejos da banca, finança e grandes corporações -  estão reunidas as condições para a desregulação do mercado do trabalho, os cortes cegos no «Estado Social», de destruição das fracas forças que se opõem ao capitalismo triunfante. O resultado desta ofensiva é um grau de sujeição nunca antes visto nos tempos modernos, permitindo a ditadura total dos muito ricos, escondidos atrás da figura imaterial dos «mercados».
A receita falhou, porque estava destinada a falhar! Os técnicos do FMI, da UE e do BCE, que compõe a «troika» e os economistas e «analistas» que os apoiaram, não eram incompetentes ou ingénuos! Pelo contrário, eram plenamente conscientes do que faziam, sabendo que a verdade nua e crua seria sempre totalmente inaceitável pelos povos. Assim, numa operação cosmética de grande aparato, fizeram crer que «era inevitável», que não havia senão este caminho ou então... um horror... mas qual horror? O regresso às moedas nacionais seria uma mudança dolorosa, sem dúvida, mas que traria uma dinâmica de correcção, como a que foi trazida quando o Peso argentino descolou da paridade com o Dólar, aquando da interrupção de pagamento da dívida da Argentina. Hoje, onze anos depois, a Argentina pagou tudo o que devia e regressou aos mercados. Pode-se considerar uma potência em muito melhor estado, em termos relativos, do que os EUA e a UE. Mas é isto que não querem que o povo saiba, por isso nunca se discute a Argentina, nem - tão pouco - a Islândia. 

Há uma cortina de silêncio destinada a fazer crer que «não existe outra saída», senão uma continuidade na receita. Só que esta receita falhou desde o primeiro instante, de forma obstinada e sem dar sinais de qualquer inversão de tendência. Contrariamente às mentiras dos políticos do «arco do poder», todos os sinais são no sentido do agravamento do estado da economia em Portugal e em todos os países sujeitos a estes planos de «salvamento».

Como dizia Passos Coelho (primeiro ministro [da troika, colocado no posto de supervisão] de Portugal) «o desemprego pode ser visto como uma oportunidade». Efectivamente, é uma oportunidade para os muito poderosos: graças ao desemprego, eles poderão esmagar os que não têm senão a sua força de trabalho, pois se sujeitarão a tudo e não terão coragem para reivindicar qualquer legítimo direito, constitucionalmente «garantido», face à ameaça permanente sobre o seu ganha-pão. Assim, os muito poderosos criaram as bases para uma exploração muito mais alargada da força de trabalho e, logo, um maior lucro.

Eu não pretendo ditar um caminho, mas sim propor um método: as pessoas que discutam com as outras, sejam da sua família, sejam amigos e colegas de trabalho, quais os meios para contrariar esta guerra contra os pobres. Como em qualquer guerra, a primeira baixa é a verdade, por isso teremos de insistir nas verdades e desmascarar as mentiras dos nossos inimigos. 

Mas, por cima e além de enunciar de verdades, temos de encontrar meios próprios para fazer face à espoliação do que é nosso, quer sejam salários, pensões, ou os meios de que o Estado está obrigado a fornecer à sociedade: podemos construir associações de apoio mútuo (incluindo cooperativas e sindicatos independentes), sem interferência do estado sob qualquer forma - as pessoas têm de passar a confiar umas nas outras, mais do que no «Estado», pelo menos enquanto este for apenas um instrumento nas mãos dos poderosos. As pessoas podem muito mais do que pensam; por isso mesmo é que se tornou imperiosa a existência de uma tão grande manipulação; por isso é que existe um exército de manipuladores, muito bem pago, que permite manter a chamada «coesão social» (outro nome para «resignação» e «alheamento social»).

Quanto mais cedo Portugal sair do colete de forças em que está metido, melhor: denunciando o «acordo de resgate», que não mais é do que uma imposição violenta da agenda neoliberal ou seja, um programa de asfixia da economia real do país, em nome de um mítico «equilíbrio». «Equilíbrio» esse que nem o país mais forte da UE (a Alemanha) possui. A oportunidade para isso acontecer é agora, pois a Grécia irá, em breve, reverter ao Dracma e suspender os pagamentos da dívida aos seus credores. A Grécia fará isso, inevitavelmente, apesar do seu governo ser o mais favorável possível à permanência no Euro, porque a situação catastrófica da sua economia não pode ser disfarçada e porque os alemães se recusam terminantemente a financiar um terceiro resgate a este país. 

Nestas circunstâncias muito particulares, estamos perante uma oportunidade histórica de sairmos desta situação, de sairmos do beco, suspendendo os pagamentos da dívida, reintroduzindo o Escudo, com base naquilo que é a realidade nua e crua: a trajectória, desde há mais de um ano, de «assistência» da troika a Portugal, assemelha-se - como cópia a papel químico - ao que se tem vindo a passar com a Grécia desde há uns três anos atrás. Como para as mesmas causas é sensato pensar-se que obtenham os mesmos efeitos, quanto mais depressa sairmos do caminho errado, melhor! Será um alívio para a economia deste país e muito para além da economia, para a subsistência de Portugal, enquanto estado e nação independente. 
A obsessão com a nossa manutenção dentro da zona euro tem de ser reconhecida como um grande erro. A entrada de Portugal para o Euro, há onze anos, foi a causa primária do que se veio a passar de menos bom, nomeadamente do sobre-endividamento dos sucessivos governos, desde a introdução do euro. Na verdade, a permanência no euro só trouxe claras vantagens para uma camada reduzida de banqueiros, eurocratas e políticos corruptos.

O facto de haver uma moeda comum super-forte (alinhada, na altura, pelo padrão do Marco alemão), foi um factor decisivo do excessivo endividamento, o qual foi encorajado pela banca nacional e dos mais poderosos países do Euro.
Os partidos do chamado «arco do poder» proporcionaram - foram agentes activos - desse endividamento por parte do Estado, mas também estimularam o sobre-endividamento das famílias e das empresas, promovendo políticas super- laxistas. Os bancos foram sempre concordando com tais políticas, pois isso lhes permitia aumentar os lucros, com o aumento dos empréstimos às famílias e às empresas. 
O grave erro dos portugueses foi acreditarem nos referidos dirigentes e darem-lhes confiança, quando estes os estavam a encaminhar para o abismo. Não devem voltar a dar confiança a uma classe política, empresarial e mediática, profundamente corrompidas e que tem enganado sistematicamente o povo. Não me parece sensato insistir nas mesmas «soluções» que têm falhado repetidas vezes, isso seria demonstração de estupidez. 

A ideia de que não podemos fazer nada, senão nos submetermos às medidas da troika para Portugal, é infundida através de discursos sem fim, apenas com o objectivo de levar a cabo o programa de eliminação total de quaisquer restos de Estado Social, com tudo o que isso significa de precarização permanente do vínculo laboral, incerteza completa em relação a situações de desemprego, velhice ou incapacidade, ausência de serviços sociais que não sejam mercantilizados, enfim, um recuo em termos sociais a situações anteriores à segunda metade do século vinte, mas com uma agravante: nessa altura, as pessoas estavam habituadas a lutarem, não tinham a ilusão de que o Estado fosse como um super-papá ou super-mamã, sempre pronto a socorrer os cidadãos em caso de necessidade. Nessa altura, não havia dúvida de que os oprimidos tinham de se unir e lutar colectivamente para defender o pouco que tinham e conquistar algo mais.
 
Agora, as jovens gerações estão anestesiadas, com todas as facilidades ou a ilusão das mesmas, veiculadas pela média, pelas modas especialmente dirigidas aos jovens e que se destinam a fazê-las esquecer quais os seus interesses. As pessoas estão tão manipuladas, que engolem a falácia de que os seus interesses pessoais e particulares estão em oposição ou não têm nada que ver com os interesses dos outros. Assim, os direitos colectivos são completamente ignorados, desprezados. As pessoas estão entregues a si próprias, pela incapacidade em se associarem e agirem em cooperação, para o bem comum. Os grandes do poder económico e politico estão portanto num contexto muito favorável, pois podem fazer tranquilamente o seu jogo, sem risco de serem denunciados, desmascarados e derrubados.

Não serve de nada projectar soluções míticas para a resolução dos nossos problemas, mas isso não significa que deixemos cair os braços! Basta termos a coragem de assumir que os problemas que enfrentamos foram criados -numa certa medida- por nós (por acção ou por inacção) e portanto, são passíveis de superação, se e somente se, formos nós a trabalhar para a sua solução. 

Solidariedade,
Manuel Baptista

16 junho, 2012

Bach - Brandenburg Concerto, No.3 for 8 hands, 2 pianos


Através da Herança de Bach cheguei a este vídeo, que vale a pena ouvir até ao fim.
Arranjo de M Tsuchiyaan, que também interpretou e gravou o vídeo.


24 maio, 2012

A homossexualidade não é uma escolha

Para não passar despercebida, esta notícia do Público, da secção Life&Style.

Mesmo para aquelas pessoas que acham que não, temos todos responsabilidades sociais, pois estamos todos em contacto e ligados. E somos todos humanos!

Saber ao certo e dizer aos outroshttp://lifestyle.publico.pt/Familia-e-relacoes

23 maio, 2012

Dietrich Fischer-Dieskau was a revolutionary performer

Fischer-Dieskau reorientated our listening experience, writes Daniel Barenboim in a personal tribute to the great baritone.

Retirado do Guardian, um tributo de Daniel Baremboin a Fischer-Dieskau.

There are many wonderful composers whose works we appreciate greatly but who did not make a significant impact on the historical development of music. Only a select few were able to at once sum up everything that had existed in music before them, and to pave the way into the future. Bach, Schoenberg, Wagner and Beethoven are outstanding examples of such revolutionaries. The situation is similar when it comes to performers of classical music: before Pablo Casals, for example, it was widely accepted that a cello just could not play in tune. Casals changed this widespread perception mainly through his interpretation of the Bach Cello Suites, and thus achieved a significant reorientation in our listening experience.
Dietrich Fischer-Dieskau was another such a revolutionary performer. He gave his first song recital as a 22-year-old, and the next year made his debut as Posa in Verdi's Don Carlos at the Städtische Oper Berlin. This was far from common at the time. In those days, a singer was supposed to sing opera, or song, but not both. Fischer-Dieskau broke through these barriers and showed that he was able to deliver extraordinary performances in different musical styles. He sang Mozart's and Verdi's operas as well as oratorios, song and contemporary pieces such as Reimann's Lear. Today, we accept implicitly that great artists are equally at home in opera and song, but Dietrich Fischer-Dieskau was the first of his kind.
When I was ten years old, I witnessed his first, or maybe second, recital in Vienna. I had never experienced anything like it and was completely mesmerised. It was the first time I heard a piano and voice recital; the intimacy and sincerity of the performance just blew me away.
His greatest achievement as an artist is maybe that he has given us an answer to the eternal question "prima la musica vs prima le parole"? (music, or words first?) He showed us that question in itself is false: in his interpretations, he created a unity between text and music unlike few before or after him. He set the benchmark in enunciation, and he emphasised key words through changing the sound of the note on which the word was sung. Thus, he not only clarified the sense of the word, but he let every syllable and every note sound together and thereby created a unity of harmony and colours unlike anyone else. For the word "death", for example, he didn't only use a different colour when pronouncing it (because he knew it was an extraordinary word), no, he also knew which colour to use for the note on which "death" was sung. He created a new dimension of the comprehensibility and understandability of the text.
We made music together for 25 years and I learned so much from him – he opened my eyes and ears to Brahms, Liszt, and especially Wolf. Through our work on Wolf's music, I was able to achieve a better understanding of Mahler's and Wagner's music. He gave me the means to work with singers in a precise and focussed manner. Our work together has been and always will be a benchmark for me. To work with him on anything was a privilege, but the Wolf Lieder set and Schubert's Winterreise stand out particularly.
He was one of the first German artists to perform in Israel, and perhaps more importantly, he sang a concert in Israel in German when he performed two recitals with Schubert, Schumann and Mahler songs with the Israel Philharmonic Orchestra in the early 70s. Until then even Beethoven's Ninth Symphony had exclusively been performed in English. Through his unique art, he enabled the German-Jewish population in Israel to once again appreciate the German language in music.
We had a very special friendship, and if I have already missed him on stage in the past 20 years, his loss now is even more painful.