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09 agosto, 2017

Stanislas Dehaene - aprender a ler


Aprender a ler: uma revolução no cérebro


Retiro este bocadinho desta entrevista. Vale a pena ler tudo e talvez um pouco mais.
Aqui podem ler e descarregar um livro deste neuro-cientista.
Penso que o assunto é demasiado importante para cair no esquecimento.

« Ele pretende que a pedagogia e a psicologia possam se beneficiar dos estudos da neurociência para criar métodos de ensino mais eficazes. “A escola transforma nosso cérebro”, diz. “Para o bem, claro”».

08 outubro, 2016

Ecrãs para os mais pequenos não, defende neuropsicólogo

No Público. Acho que dá que pensar e é urgente dar ouvidos a quem sabe! Todos os professores sabem que têm salas de aulas cheias de alunos que não têm curiosidade, capacidade de atenção e concentração, paciência e sem resistência à frustração! E sofrem porque não se entendem nem conseguem ser diferentes. Não têm ferramentas emocionais.

Ecrãs para os mais pequenos não, defende neuropsicólogo

"O espanhol Álvaro Bilbao alerta para os problemas de défice de atenção, comportamento e insucesso escolar.
O neuropsicólogo espanhol Álvaro Bilbao defende que os ecrãs deviam estar vedados às crianças até aos três anos. Os estímulos rápidos e as recompensas imediatas dos tablets e dos smartphones matam a curiosidade, avisa.
No seu livro O cérebro da criança explicado aos pais, lançado este mês em Portugal, Álvaro Bilbao deixou em branco o capítulo 25, destinado a elencar as melhores aplicações tecnológicas para crianças até aos seis anos. "Lamento dizer que não encontrei nenhuma que seja útil para o desenvolvimento intelectual e emocional das crianças destas idades", diz o autor, doutorado em Psicologia da Saúde e formado em Neuropsicologia pelo Hospital Johns Hopkins, nos Estados Unidos.
O especialista em plasticidade cerebral lembra os vários estudos que já demonstraram que as crianças que se expõem muito cedo a novas tecnologias têm maior probabilidade de desenvolver défice de atenção, problemas de comportamento e insucesso escolar.
Mas os ecrãs não são todos iguais. Para Álvaro Bilbao, a televisão "causa menos danos" porque permite maior passividade.
Pode parecer um contrassenso para os pais que uma ferramenta "mais passiva" seja menos nociva, mas é a rapidez do ritmo de interacção e a quantidade de estímulos das novas tecnologias que mais preocupam o especialista. "As crianças recebem muitos estímulos visualmente atractivos e têm muitas recompensas rápidas. Passam o dedo no ecrã e têm um prémio. Na vida real não é assim; na vida real a professora não é tão visualmente colorida, não se move tão depressa e não está constantemente a reforçar a criança".
Além disso, a rapidez e quantidade de estímulos recebidos pelas novas tecnologias não permitem treinar a atenção, nem a paciência.
As televisões sempre são mais passivas e activam ondas cerebrais que ajudam a relaxar. Ainda assim, também a televisão deve ser doseada, diz Bilbao, permitindo períodos curtos e retardando o mais possível na idade. "Muita estimulação mata a curiosidade, uma criança que recebe muita informação satura-se e deixa de gostar de explorar e de aprender. Já uma criança curiosa é a que gosta de aprender. Não matemos a curiosidade", pede o neuropsicólogo.
Álvaro Bilbao incita os adultos a uma reflexão sobre o seu próprio uso das novas tecnologias; "Usamos smartphones há alguns anos. Quantos de nós se notam mais inteligentes por isso? E, agora, quantos de nós se sentem menos pacientes?".
Mais desenvolvimento intelectual traz felicidade?
A maioria dos pais dedica muito esforço à formação académica dos filhos, convencidos de que uma "mente brilhante abrirá todas as portas", mas o neuropsicólogo considera errada a ideia de que maior desenvolvimento intelectual traz mais felicidade.
O especialista espanhol parte da ideia de que o cérebro se divide em três partes – uma mais instintiva, outra mais intelectual e outra mais emocional. Ora, os primeiros anos da criança são os mais importantes para o desenvolvimento da parte emocional; é aqui que se progride na autoestima, na confiança em si mesmo e no vínculo aos outros, em primeiro lugar, aos pais.
Álvaro Bilbao pega no exemplo da aprendizagem de línguas, começando por admitir que é mais fácil aprender chinês ou inglês nos primeiros anos. Contudo, as línguas estrangeiras podem ser aprendidas mais tarde, enquanto o desenvolvimento da autoestima, a imaginação, o afecto e bons vínculos ocorrem nesses primeiros anos e, depois, pode ser tarde demais.
"Os primeiros anos de uma criança são para o cérebro emocional, não para o cérebro racional ou intelectual", resume o neuropsicólogo.
O perito reconhece que actualmente se fala muito em inteligência emocional, mas julga que se age pouco de acordo com o que já é conhecido: "Quando numa escola há uma criança sem amigos ou que sofre perseguição de colegas, a escola segue em frente, continua dando matéria e testes, mas não se detém a solucionar esse problema emocional".
Modelo semelhante é visível nos pais, que depositam interesse nas notas que um filho atinge mas não se preocupam tanto em saber se é bom com os seus pares ou se tem algum colega que esteja sempre sozinho ou isolado.
No livro, o autor advoga que a maioria dos pais dedica muito esforço à formação académica por estarem convencidos de que "uma mente brilhante abrirá todas as portas que podem levar uma pessoa a ser feliz". "A ideia de que um maior desenvolvimento intelectual proporciona uma maior felicidade está totalmente errada", afirma.
A chave para compreender melhor a afirmação do neuropsicólogo pode estar na ausência de correlação entre a capacidade intelectual e a capacidade emocional. E para o autor, a prova disso é que há muitas pessoas com excelentes carreiras de sucesso e cheias de capacidades intelectuais mas que não têm empatia, sofrem de stress crónico e não conseguem encontrar felicidade.
O especialista vinca que a inteligência emocional e a racional estão localizadas em áreas bem diferentes do cérebro, que são independentes.
Mas a ciência da inteligência emocional é recente, era desconhecida da geração que desempenha agora o papel de avós ou bisavós e foi pouco transmitida aos actuais pais, que desconhecem ainda muito do vocabulário emocional.
Álvaro Bilbao defende a importância de deixar que a criança expresse as suas emoções, as entenda e as saiba nomear: "Se tem vontade de chorar, pois que chore. Não lhe digamos, 'pára de chorar'. Devemos tentar que perceba qual a razão que a faz chorar, que a identifique e a compreenda". "

14 agosto, 2014

António Damásio - Entrevista Exclusiva


Uma entrevista fundamental. As neurociências, o cérebro, a Humanidade... mas antes de tudo a Vida!
A montagem da entrevista está muito bem feita e permite parar e pensar no que se acabou de ouvir.



17 agosto, 2013

A Vida Secreta Do Cérebro -- O Cérebro Idoso


Um vídeo com informação importante, a meu ver, nos dias que correm. Claro que há os outros vídeos da mesma série para ver.


02 março, 2012

O neurocientista a quem já chamaram "o psicólogo dos carapaus"

Entrevista de Ana Gerschenfeld, no Público de 27/02/2012, a Rui Oliveira.
Podia só citar algumas partes mais importantes, mas como a entrevista é toda muito interessante e importante, publico-a toda aqui, já que quem não comprou o jornal neste dia e não é assinante da versão online, nunca mais a vai ler.


Talvez o maior desafio da ciência actual seja conseguir ligar o que se sabe do funcionamento do cérebro a comportamentos e tomadas de decisões complexos. A aventura nem sempre tem sido fácil.
Rui Oliveira tem muita paciência. Nota-se logo. Fazemos-lhe perguntas e mais perguntas (algumas hesitantes) e ele responde com a maior calma e simpatia. Explica pausadamente o tipo de trabalho que se faz no seu laboratório. No mínimo, as suas experiências são surpreendentes. Nuns aquários, numa sala situada algures no edifício labiríntico do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa - o ISPA, onde Rui Oliveira também ensina e do qual é actualmente o reitor -, ele e a sua equipa põem uns peixinhos a lutar uns contra outros para estudar as alterações biológicas induzidas no minúsculo cérebro desses animais pelo desenlace dos confrontos. Lê-se nas etiquetas dos aquários: "Exp.: Alteração Estatuto Social". Estatuto social? Sim, isso mesmo. É que, depois da luta, os peixes apresentam padrões de actividade genética diferentes conforme tenham saído de lá vencedores ou vencidos. Bastam 30 minutos desta interacção para o comportamento social (de peixe dominante ou subordinado) ficar, por assim dizer, "gravado" na biologia cerebral dos animais - e as marcas são "brutais", diz Rui Oliveira. Há uns dias, o neurocientista apresentou no ISPA os mais recentes resultados da sua equipa - e a seguir, conversou com o P2.

Tem havido progressos significativos no sentido de conciliar a Biologia e a Psicologia?


Tem. Sobretudo desde a década de 90, a "década do cérebro", em que houve um grande investimento nos Estados Unidos e se formaram equipas de neurociências multidisciplinares que promoveram uma aproximação entre as abordagens mais psicológicas e as abordagens mais biológicas.

Até aí, a ideia era que os diferentes níveis de análise do comportamento eram hierárquicos e unidireccionais: as leis da fFsica informavam as leis da Química, que informavam as leis da Biologia, que informavam as leis da Psicologia, que informavam as leis da Sociologia. Mas, com a constituição de equipas de neurociências, com psicólogos, biólogos, médicos, etc., a interagirem, houve uma fertilização cruzada de saberes diferentes. E tornou-se então evidente que não era só o biológico a explicar o psicológico e o social, mas que as dimensões psicossociais também exerciam um feedback nos mecanismos biológicos. Que o inato e o aprendido (nature and nurture) eram, no fundo, duas faces de uma mesma moeda e não abordagens mutuamente exclusivas.

Também se descobriram mecanismos que nos permitem compreender como é que a informação social pode influenciar os mecanismos biológicos, com os avanços na genética, e nomeadamente na epigenética. Os mecanismos epigenéticos são os que regulam a expressão dos genes e a epigenética permite compreender como é que o mesmo genótipo [conjunto de genes] pode produzir comportamentos diferentes em diferentes momentos.

E também permite perceber como é que as experiências de vida podem marcar de maneira duradoura o padrão comportamental de um indivíduo. Um dos desafios quando se estuda o comportamento social é a sua complexidade, a sua plasticidade, é o facto de não haver regras simples do género "este input vai provocar sempre este output". O mesmo input pode produzir outputs diferentes, dependendo de variações pequenas do contexto social e do estado interno em que está o indivíduo. As regras não são simples, como julgávamos de início.

Estuda o comportamento social nos peixes. Faz sentido fazer experiências no animal relativas a algo que é suposto ser um exclusivo dos humanos - ou, quando muito, dos primatas para cima?

Nós não estamos a questionar o facto de os comportamentos sociais mais complexos serem um exclusivo dos humanos. Sem dúvida nós somos capazes de competências sociais que outras espécies não têm - ou têm a um nível menos desenvolvido. Por exemplo, empatia pelos outros.

Há 15 anos, isto de andar a estudar Psicologia em peixes era uma coisa que não fazia grande sentido. Mas o que se está neste momento a constatar é que temos mais a ganhar se não pusermos a ênfase naquilo que é unicamente humano, porque podemos então compreender como é que outras espécies mais simples (que, por serem mais simples, são mais facilmente estudadas em contextos experimentais) navegam nos seus ambientes sociais.

A maior parte das competências de cognição social que são necessárias nos ambientes em que existem interacções repetidas entre os mesmos indivíduos não exigem cérebros muito complexos. Os cérebros-miniatura possuem as ferramentas necessárias para resolver os problemas. Podem é ter menos plasticidade - um repertório mais pequeno de comportamentos, menos graus de liberdade. Mas o fenómeno de base já lá está.

Ora, nós podemos tirar partido disso. Para estudar espécies muito mais simples, temos abordagens experimentais muito mais poderosas do que se nos embrenharmos no estudo dos chimpanzés. No nosso grupo, estudamos o peixe-zebra e a tilápia [Oreochromis mossambicus, um peixe de Moçambique], mas há outros grupos que trabalham na drosófila e no ratinho.

Ainda há muitos preconceitos em relação a este tipo de modelo animal?


Saindo da comunidade das neurociências, acho que ainda há preconceitos, tanto do lado dos psicólogos como dos biólogos. Eu estou numa situação confortável, porque sou biólogo de formação e sou psicólogo por viver rodeado de psicólogos e num instituto de Psicologia. E devo dizer que estes trabalhos são cada vez menos vistos com desconfiança, embora inicialmente a desconfiança fosse muita. Para os psicólogos, nós éramos os "psicólogos dos carapaus", como cheguei a ser chamado aqui no ISPA [ri-se]. Éramos reducionistas, reduzíamos tudo aos genes. A relação, esse cálice sagrado dos psicólogos, não se "agarrava" com biologia. E muito menos em peixes. Quanto aos biólogos, estudar o comportamento sempre foi visto por eles como uma soft-science.

É cada vez menos assim. Mas é preciso que os que se metem nesta aventura tenham alguma resiliência, porque têm de ouvir muitas bocas... e não ligar... e continuar firmemente.

Dentro das comunidade de peixes que estuda, há indivíduos dominantes e subordinados. O seu estatuto social não é imutável?

A dominância não é um atributo individual. Não é uma característica intrínseca do indivíduo, vem do grupo onde está. E de facto, um tipo de trabalho que nós fazemos incide precisamente sobre os efeitos da mudança de estatuto social.

Nos peixes, isso é muito fácil de fazer. Eu aqui posso manipular grupos de peixes naqueles aquários que viu lá em baixo. Para dar um exemplo: tomemos um indivíduo que é dominante. Se eu nunca intervir no grupo, ele vai ser o "macho alfa" daquele grupo e os outros peixes vão crescer menos. Ele vai manter-se dominante durante muito tempo, até ter algum problema que o torne vulnerável e outro aproveite para ganhar esse estatuto.

Mas, experimentalmente, eu posso simular algo que acontece muitas vezes na natureza: a imigração. Posso pegar agora num indivíduo que é dominante neste grupo e colocá-lo noutro grupo onde, jogando com diferenças de tamanho, eu posso induzir a sua passagem de macho dominante para subordinado. Por exemplo, pondo-o num aquário em que todos são maiores do que ele. Por muito dominante que ele esteja convencido que é, rapidamente percebe que perdeu o seu estatuto [ri-se].

Também posso fazer o contrário, que é pegar num indivíduo subordinado e transportá-lo para um aquário de indivíduos todos muito mais pequenos do que ele, em que ele percebe que tem ali uma oportunidade de se tornar dominante. E torna-se dominante.

E a seguir, o que podemos fazer é olhar para o cérebro desses animais e ver que modificações estão a ocorrer quando induzimos experimentalmente uma mudança de estatuto social. Podemos assim perceber como é que o seu cérebro e o seu organismo respondem a alterações de estatuto. E o que é muito interessante verificar é que essas respostas são imediatas. Minutos depois, começamos a ter os primeiros sinais.

Sinais biológicos?

Sim. Começamos a ter alterações do perfil de expressão génica. Nas nossas experiências no peixe-zebra, podemos quantificar em simultâneo a expressão de 15 mil genes [graças a um chip de análise genética]. E quando pomos um peixe a lutar com outro, ao fim de 30 minutos, se a luta alterou o estatuto social desse peixe, mais de 200 genes no seu cérebro vão mudar o seu nível de expressão [nível de actividade].

Manipulamos o ambiente social e [a actividade] de alguns genes começa a aumentar, enquanto a de outros começa a diminuir. Não suspeitávamos de que isso pudesse ser tão imediato, julgávamos que ia demorar mais tempo até vermos mudanças tão maciças, até termos tantos genes a responder a um evento na vida do organismo.

Mas perder ou ganhar estatuto social são coisas sérias e o que nós estamos agora a mostrar é que a expressão génica no cérebro é muito sensível ao ambiente social em que os animais se encontram - e que podemos induzir alterações profundas no perfil dessa expressão génica. É quase como se existisse uma assinatura social de expressão génica no cérebro dos peixes.

Há um perfil de expressão génica típico de um indivíduo dominante e um perfil típico de um subordinado e nós conseguimos fazer o peixe passar de um perfil para o outro induzindo uma mudança de estatuto social [através da luta].

E a seguir, conseguimos olhar para o perfil de expressão génica de um peixe e dizer o que é que lhe aconteceu nos 30 minutos de luta. Conseguimos de facto agrupar correctamente todos os peixes, sem saber o que lhes aconteceu nesses últimos minutos. Olhando apenas para o perfil de expressão génica no cérebro de cada peixe, podemos dizer se tem um perfil génico típico de um dominante ou típico de um subordinado. E até sabemos reconhecer o perfil de um peixe que lutou, mas que não conseguiu perceber qual era o seu estatuto final.

Por que é que não conseguiu?


Porque não ganhou nem perdeu. Trata-se de peixes que nós pomos a lutar contra a sua imagem num espelho. Expressam um comportamento social, mas como lutam com a sua própria imagem, não conseguem resolver essa interacção.

E aí, o que é muito curioso, é que a alteração génica é quase inexistente. Isto sugere outra coisa interessante: que existe uma dimensão cognitiva na activação da resposta génica. Tem de haver uma avaliação, uma interpretação pelo peixe daquilo que lhe está acontecer. E é só quando ele se convence de que está a mudar de estatuto, de que está a transformar-se de subordinado em dominante, que surge a alteração do perfil de expressão génica.

E os genes cuja actividade muda vão fazer o quê? Qual é a parte seguinte na cadeia de acontecimentos biológicos?

A esta onda de resposta a nível dos genes segue-se uma onda de resposta a nível das proteínas que esses genes produzem, à qual se segue uma onda de resposta a nível do fenótipo das células cerebrais - isto é, uma alteração daquilo que a célula faz e das suas ligações com outras células.

Um dos genes que nós descobrimos (o BDNF) está envolvido na plasticidade neuronal. E o que os nossos dados preliminares sugerem é que parte desta plasticidade neuronal passa pela alteração de redes neuronais, por formar novos neurónios que se vão incorporar em circuitos neuronais e se vão tornar funcionais. Neste caso, vamos assistir a um rearranjo estrutural do circuito neural subjacente à produção do comportamento.

Mas a reorganização do circuito induzida pela alteração da expressão dos genes também pode acontecer apenas através de alterações dos níveis de actividade de neurónios já existentes no circuito. É como se tivéssemos uma equipa de futebol e fizéssemos substituições, colocando jogadores novos em função da informação que temos, ou, pelo contrário, mantivéssemos os mesmos jogadores dizendo-lhes para jogar de maneira diferente. Esses dois níveis de regulação dos circuitos vão a seguir produzir comportamentos sociais diferentes nos peixes.

Fazem estudos em seres humanos?

Sim, muitas das ideias que investigamos nos animais, também as investigamos em humanos. Obviamente que aqui não podemos recorrer às abordagens intrusivas que utilizamos nos animais e, por isso, o que medimos são respostas hormonais. Algo que estudamos muito é a forma como o ambiente social activa certas respostas hormonais, ou seja: como é que os mecanismos de avaliação cognitiva activam a resposta hormonal. Nos humanos, podemos ser mais minuciosos a nível psicológico e tentar perceber o que está a mediar a resposta.

Também temos estudos recentes, muito interessantes, que mostram que, em situações de competição social, as variáveis-chave são a percepção da ameaça e a familiaridade. O que acontece é que a percepção de uma ameaça vinda de um sujeito familiar não activa uma resposta hormonal, mas se o um sujeito não for familiar, passa a activar.

Portanto, as subtilezas sociais que encontramos nos peixes, também as encontramos nos humanos e, no fundo, temos dois sistemas de estudo: os peixinhos, onde podemos manipular mais intrusivamente e ir atrás do que se passa a nível de expressão génica no cérebro; e os humanos, onde utilizamos paradigmas muito parecidos, mas onde medimos parâmetros cardiovasculares ou respostas hormonais. O tema é o mesmo.

Ao mesmo tempo, os humanos podem dizer o que sentiram, ao contrário dos peixinhos.

Os humanos dão-nos de facto uma informação mais rica no que diz respeito à componente de tradução cognitiva do social para o biológico. É esta capacidade humana que estamos a aproveitar.

O seu trabalho tem aplicações em Psicologia humana?

Como referi, nós estamos a mostrar, nos nossos peixinhos, que não é o que lhes está a acontecer o que realmente interessa, mas a percepção que eles têm do que lhes está a acontecer. E que essa percepção tem um efeito diferencial no cérebro. Não é o que lhe está a acontecer que interessa, porque o peixinho que lutou com o espelho lutou mesmo - mas nada aconteceu na sua cabeça. Mas se ele se convencer de que lutou e ganhou, isso activa uma resposta cerebral brutal.

Isto mostra que há plasticidade nas respostas comportamentais - e que, se conseguirmos desenvolver modelos de intervenção que permitam alterar a maneira como uma pessoa pensa sobre o que lhe está a acontecer, vamos poder, em teoria, fazer o que o peixinho faz: mudar as percepções que essa pessoa tem, a maneira como ela pensa sobre as coisas. E desenvolver estratégias para lidar com elas (coping). Se dermos essas ferramentas às pessoas, isso potencialmente vai amenizar as respostas negativas que poderiam ter.

Por outro lado, isto abre a via à explicação do psicossomático, porque mostra que a forma como pensamos nas coisas pode ter um impacto no nosso cérebro e no nosso corpo. Portanto, mostra que [as manifestações psicossomáticas] são coisas reais, não são coisas que precisam de explicações muito analíticas, muito rebuscadas, do ego... De facto, isto está a dar aos que fazem análises mais dinâmicas pistas sobre os mecanismos biológicos por trás dos processos que eles utilizam nas terapias.

13 julho, 2010

"É possível construir uma neurociência da pessoa humana"


Numa entrevista publicada hoje no Público, Jean-Pierre Changeux, especialista de neurobiologia molecular, deixa muitas questões para pensar e para agir. Aponta também para o futuro.
Muito interessante.
Da entrevista:
"Começam a existir modelos e dados sobre a internalização da cultura e a sua produção - isto é, sobre a forma como os circuitos cerebrais se modificam ao longo do desenvolvimento, da aprendizagem da oralidade e da escrita, do estabelecimento de regras de conduta moral, da criação artística."