09 março, 2012

Bullying - os estudantes testemunhas

Em mais uma crónica (acho que a última na Pública) porque sim de
Daniel Sampaio
, com o título O que dizer aos jovens



      "Na semana passada estive no Faial (Açores), a convite da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens da cidade da Horta, que assinalava a sua V Semana de Direitos.
       Na Escola Secundária Dr. Manuel de Arriaga — um espaço magnífico com condições excepcionais para o ensino — tive ocasião de debater com os alunos o tema do bullying. Mais uma vez constatei como este problema é discutido apenas na perspectiva dos agressores e das vítimas: quando propus focarmos o papel dos estudantes-testemunhas, que assistem a tudo sem nada fazer, a surpresa foi total.
       O problema é que não se trata de falta de informação. Os estudantes açorianos, tal como a maioria dos seus colegas do continente, sabem o que são os comportamentos sistemáticos de humilhação e provocação que definem o bullying. Quando um aluno disse que tal não acontecia naquela escola, pude ouvir risos abafados; e depressa me apercebi que muitos reconheciam vantagem na Escola Segura, no envolvimento dos pais ou na rapidez de resposta dos professores. Todavia, pensavam que era assunto de alguns, a ser resolvido pelas autoridades, sem a sua participação. 
       Esqueciam o essencial: o bullying não surge para resolver confl itos ou para expressar uma raiva ocasional, é terror, manifesto ou oculto, e só pode ser resolvido com a participação da maioria, os estudantes-testemunhas.
       Quando à noite, numa sessão para pais, apelei à participação dos estudantes-testemunhas, uma mãe disse-me que seria difícil, porque esses jovens seriam apelidados de “queixinhas”. Depressa respondi que a participação cívica é um acto de cidadania e nada tem a ver com delação ou traição. Se na escola existir um bom conhecimento do problema, se surgir uma comissão anti-bullying que integre professores, alunos, assistentes operacionais e estudantes, será rápida a detecção de situações de violência escolar e medidas efi cazes não faltarão. E quando uma aluna perguntou o que poderia fazer se, por medo, a vítima recusasse ajuda, depressa outros dois colegas responderam: “Não a poderemos deixar sozinha.”
       Ficou muita coisa por dizer, como sempre acontece nestes debates. Não houve tempo para que eu denunciasse, uma vez mais, esta cultura de desresponsabilização que caracteriza a nossa relação com os jovens, em que os consideramos irreverentes e agitados, em vez de os responsabilizarmos pela resolução dos seus próprios problemas. É certo que os estudantes que enchiam o auditório da escola me pareciam tranquilos, mas o que estaria por detrás daqueles sorrisos simpáticos? Tive a resposta na rua, na manhã seguinte: um aluno reconheceu-me e disse: “Foi bom aquilo ontem, mas não acredite no meu colega, ele é um ingénuo! Há bullying na nossa escola…” E logo ali, frente ao Café Peter e com vista para o Pico, me relatou dois casos.
       Fiquei a pensar. E dei comigo a questionarme se a vida escolar daquele aluno-vítima que o colega me trazia não poderia ter começado a ficar vulnerável na sua própria casa. Talvez ninguém lhe tivesse dito o essencial, como: eu acredito em ti, eu confi o em ti, eu preocupo-me contigo e quero que te preocupes comigo, eu acho que és capaz de lidar bem com situações difíceis, és importante para mim mas sobretudo és importante para ti mesmo.
       Agressor e vítimas parecem ser os protagonistas do teatro real do bullying, mas há um grande grupo de maioria silenciosa, os estudantes-testemunhas. Se os mobilizarmos, obteremos resultados, enquanto na nossa intimidade recuperamos aquelas frases em itálico: não é isso, afinal, que deveremos dizer a todas as crianças?"